ENTREVISTA: Jayler fala sobre sucesso viral e estreia no Monsters of Rock

 


“Por que choras, Greta Van Fleet?” A provocação, que circulou com força nas redes sociais, resume bem o impacto inicial causado pelo Jayler. A semelhança com o Led Zeppelin — não apenas na sonoridade, mas também na estética visual — é tão evidente que chega a ser desconcertante. Não por acaso, o grupo viralizou em agosto de 2025 e, assim como aconteceu com a banda dos irmãos Kiszka alguns anos antes, passou a receber críticas recorrentes de quem, nas palavras dos próprios músicos, “julga só pela aparência e nem chega a ouvir direito”.

Formado por James Bartholomew (vocal), Tyler Arrowsmith (guitarra), Ed Evans (bateria) e Ricky Hodgkiss (baixo), o quarteto se apresenta como uma unidade coesa — ainda que, na prática, a conversa tenha sido conduzida apenas por Bartholomew e Arrowsmith. Enquanto isso, os colegas permaneciam quase fora de quadro, reagindo com risos e acenos ocasionais. Uma dinâmica que, guardadas as proporções, remete ao próprio Zeppelin em seus tempos áureos, quando a linha de frente criativa naturalmente concentrava as atenções.

A entrevista que você está prestes a ler foi realizada poucos dias antes do anúncio do álbum de estreia, Voices Unheard, previsto para maio. Em meio à crescente exposição internacional, a pauta gira, sobretudo, em torno da aguardada participação da banda no Monsters of Rock, em São Paulo — oportunidade que o grupo enxerga como estratégica para estabelecer uma conexão duradoura com o público brasileiro e, quem sabe, transformar essa primeira visita em um compromisso recorrente com o país.

Boa leitura!


Por Marcelo Vieira


O Monsters of Rock carrega uma mística única no imaginário do rock brasileiro. O que significa para o Jayler estrear em um palco historicamente associado a nomes lendários?

Tyler Arrowsmith: Cara, são bandas com as quais todos nós crescemos. Mesmo quem nem é tão ligado em rock conhece nomes como Guns N’ Roses. Então, estar no mesmo line-up que artistas desse calibre é algo que, sinceramente, a gente não esperava tão cedo. E, especialmente, não no Brasil. Os fãs brasileiros começaram a aparecer ali por agosto, setembro do ano passado, mandando mensagens do tipo “venham para o Brasil”. E a gente ainda tocava em shows pequenos, em clubes. Parecia algo distante. E, de repente, aqui estamos — a menos de um mês de tocar nesse festival. É surreal. Estamos muito empolgados.


Existe a sensação de precisar “provar algo” para um público que talvez ainda não conheça a banda a fundo?

James Bartholomew: Sim, acho que sim. Vai ser interessante nos apresentarmos para um novo público, em um novo país. Não diria que é difícil, mas é algo novo. Vamos fazer o que sabemos fazer: tocar o mais alto possível, dar o nosso melhor — e esperamos que o público goste.


No palco, o que diferencia uma boa apresentação de uma experiência realmente memorável?

James Bartholomew: Ótima pergunta. Eu diria que é a interação com o público. Você pode ser um músico ou cantor incrível, mas, se não houver conexão, algo fica faltando. Quando você começa a cantar para as pessoas, e não apenas diante delas, a experiência muda completamente. Olhar para quem está na primeira fila, interagir… isso é o que torna o show inesquecível.


Uma das cidades que mais escutam Jayler no streaming é São Paulo. Vocês já tinham percebido essa conexão com o público brasileiro?

James Bartholomew: Sim. Durante as gravações do álbum, a gente ficava acompanhando os números, e São Paulo sempre aparecia no topo.

Tyler Arrowsmith: A gente saiu de cerca de 10 mil ouvintes mensais no Spotify para quase 100 mil — chegamos a 99 mil. Ficamos pensando: “o que está acontecendo?”. Quando fomos ver os dados, cerca de 60% dos ouvintes eram de São Paulo. É inacreditável.


Existe a possibilidade de transformar esse interesse em uma turnê própria pelo país?

James Bartholomew: Esperamos que sim. Adoraríamos voltar. Se formos bem recebidos nesses três shows, com certeza queremos retornar.

Tyler Arrowsmith: E expandir para mais países da América do Sul. Sabemos que há público em outros lugares também. Esses três shows são só o começo — queremos fazer mais datas no futuro.


Desde que os vídeos ao vivo começaram a viralizar, muitos comentários apontam semelhanças com o Led Zeppelin. Existe uma linha que vocês procuram não ultrapassar?

James Bartholomew: Sim e não. Não queremos simplesmente repetir o que eles fizeram, mas expandir aquilo que representavam. Nos anos 1970, várias bandas estavam nessa mesma vibração — paz, amor, união. Pense em Jimi Hendrix, The Who, Crosby, Stills, Nash & Young… Queremos trazer esse espírito para a nossa geração, que, na nossa visão, precisa disso novamente.

Tyler Arrowsmith: Muita gente interpreta errado, como se estivéssemos tentando copiar o Zeppelin. Mas não há esse pensamento consciente. A gente simplesmente cria. Claro, somos influenciados por bandas dos anos 70 — e também pelas influências delas, lá dos anos 50. No fim, fazemos a música que gostaríamos de ouvir.


Em um dos comentários, alguém apelidou James de “Robert Replanted”. Vocês encaram esse tipo de brincadeira com bom humor?

James Bartholomew: [risos] Acho engraçado.

Tyler Arrowsmith: Aprendemos a encarar assim.

James Bartholomew: No começo talvez não, mas hoje sim. E acho que somos diferentes o suficiente para não sermos apenas uma banda tributo ao Zeppelin ou aos anos 70. Estamos pegando o que eles representavam e “replantando” — então, no fim, o apelido até faz sentido.

Tyler Arrowsmith: Muita gente julga só pela aparência — o cabelo, a roupa — e nem chega a ouvir direito. Vê um clipe de 10 segundos, comenta e segue em frente.



A história do rock mostra que cada geração redescobre o Zeppelin à sua maneira. Tivemos Greta Van Fleet recentemente — e agora vocês. Isso revela uma lacuna no rock atual ou apenas prova que certas linguagens são atemporais?

James Bartholomew: Acho que é atemporal. As pessoas se afastaram desse tipo de som, especialmente nos anos 80 e 90, buscando algo mais pesado e técnico. Isso é impressionante, claro, mas liricamente não aborda as mesmas questões. Esses temas continuam existindo — só foram deixados de lado. E agora estão voltando à tona.


Vocês sabem se Robert Plant, Jimmy Page ou John Paul Jones já ouviram a banda?

James Bartholomew: Sabemos que o Robert ouviu. E fez um comentário que talvez seja o melhor que já recebemos. Ele viu um vídeo nosso no celular e disse: “quem é o cara que roubou minha blusa e minha calça jeans?”. Quando ouvi isso, pensei: “meu Deus, ele sabe quem somos”.

Tyler Arrowsmith: Disseram que ele comentou isso no rádio. Pareceu algo bem-humorado — ele não nos odeia, o que já é ótimo.


Houve algum momento em que outro ídolo musical reconheceu o trabalho de vocês?

James Bartholomew: Acho que o caso do Doug Aldrich, do The Dead Daisies.

Tyler Arrowsmith: Sim, foi incrível. A gente estava em Nashville indo para uma loja de bateria, e ele ligou para o nosso empresário perguntando se estávamos com ele. Mandou um “olá” e conversamos com ele no viva-voz. Foi surreal.


Em nível pessoal, quando vocês perceberam que a música deixaria de ser apenas uma paixão para se tornar um projeto de vida?

James Bartholomew: Para mim, foi desde o início. Nunca foi só um hobby. Mas o momento em que percebemos que o Jayler podia realmente crescer foi na turnê com Kira Mac — nossa primeira turnê no Reino Unido. Ali pensei: “é isso”.

Tyler Arrowsmith: Nunca deixou de ser paixão — e nunca vai deixar. Sempre há algo novo para aprender. Mas quando a banda começou a ganhar estrutura, com equipe e management, tudo se intensificou. A paixão multiplicou.


Do ponto de vista técnico, como nasce uma música do Jayler?

James Bartholomew: Não existe fórmula. Geralmente começamos improvisando até encontrar algo que funcione. Gravamos uma demo e, uma ou duas semanas depois, entram as letras. Depois refinamos tudo — acrescentamos detalhes, camadas. Mas não há teoria rígida. É tudo muito intuitivo.


Apesar da associação imediata com o rock clássico, vocês já citaram interesse por reggae, funk, disco e jazz. Como esses elementos aparecem no material atual?

James Bartholomew: Há uma faixa chamada “Bittersweet” que puxa mais para o folk — algo que eu amo, com influências de John Denver e Bob Dylan. Já “Hate to See It End” é praticamente folk rock. E recentemente começamos a explorar coisas mais funk e mais pesadas também.


No processo de composição, existe uma liderança central ou tudo é colaborativo?

James Bartholomew: Nas letras, sou mais eu.

Tyler Arrowsmith: No instrumental, é coletivo. A gente cria a base juntos e depois o James desenvolve as letras. Às vezes, tudo surge muito rápido — música e letra em poucas horas. E, curiosamente, essas acabam sendo algumas das nossas favoritas.


Depois do Monsters of Rock, qual é o próximo passo da banda?

Tyler Arrowsmith: Temos três shows no Brasil, depois voltamos para casa e seguimos para festivais na Europa — Suécia, Noruega… Também vamos tocar com Sammy Hagar em alguns shows. E, no fim do ano, vem uma turnê grande com o Deep Purple pela Europa e Reino Unido.


Daqui a dez anos, como vocês gostariam que essa estreia no Monsters of Rock fosse lembrada?

Tyler Arrowsmith: Como algo positivo.

James Bartholomew: Quero que a banda seja lembrada por unir as pessoas.

Tyler Arrowsmith: E que isso seja só o começo — não um evento isolado. Queremos voltar ao Brasil muitas vezes.



SERVIÇO – MONSTERS OF ROCK 2026

Data: 4 de Abril de 2026

Local: Allianz Parque – Avenida Francisco Matarazzo, 1705 – Água Branca – São Paulo (SP)

Abertura de Portão: 10h

Início dos Shows: 11h30

Atrações Confirmadas: Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Halestorm, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler.

Ingressos: Eventim

Classificação Etária: 14 anos desacompanhados. Menores de 14 anos poderão comparecer ao evento desde que acompanhados dos pais e/ou responsáveis legais. Informação sujeita à alteração, conforme decisão judicial.


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