REVIEW: Whitesnake – Rock in Rio, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2019

Fotos: Gustavo Maiato

Trinta e quatro anos depois de se apresentar no primeiro Rock in Rio, em 1985, o Whitesnake volta ao festival. Na qualidade de headliner do Palco Sunset num dia no mínimo curioso — para não dizer completamente deslocado em termos de estilo —, David Coverdale e seus asseclas tinham uma missão a cumprir: entreter uma galera que, muito provavelmente, estava ali mais pelo oba-oba que pela música em si. 

À exceção de Coverdale e do baterista Tommy Aldridge, a banda que se vê no palco é totalmente nova — pelo menos no que se refere ao Rock in Rio. Nas guitarras, Reb Beach — já o guitarrista mais longevo da história do Whitesnake — e o “sex on two legs” Joel Hoekstra formam uma dupla cuja sintonia se pode verificar em alto e bom som no recém-lançado “Flesh & Blood”. Baixo e teclados ficam respectivamente a cargo de Michael Devin e do italiano Michele Luppi.

Já que falei de “Flesh & Blood”, o novo álbum comparece com “Hey You (You Make Me Rock)” e “Trouble is Your Middle Name”, talvez os únicos momentos em que a resposta do público se restringe a ouvidos atentos e olhares admirados em vez da cantoria e das palmas que se ouve nos clássicos.

Apesar da discografia composta por treze álbuns de estúdio, o repertório do Whitesnake foca tão e unicamente nos seus anos de maior sucesso comercial; ou seja, tudo o que se ouve é oriundo ou de “Slide It In” (1984) ou do autointitulado disco de 1987, de onde vêm nada menos que quatro das dez músicas tocadas, incluindo “Is This Love” e “Here I Go Again” — sim, eu sei que a versão original desta está presente em “Saints & Sinners” (1982), mas ao vivo a banda toca a regravação de cinco anos depois.

Precisamos falar sobre a vitalidade de David Coverdale, que compensa lapsos vocais com a presença canastrona aperfeiçoada de Robert Plant que serviu de modelo para toda uma geração de vocalistas. O pedestal é o seu cetro, a sua lança. Ele o joga, o rodopia. Estimula-o como se este fosse uma extensão natural de seu corpo. Morde o lábio, joga beijinho, pisca o olho, aponta. O público feminino é arrebatado pela sedução. Aos 68 anos, completados em solo brasileiro, o cara ainda ostenta o mesmo perfil de comedor de outrora, só que mais enrugado e com o cabelo levemente mais ralo.

E o que dizer do solo de bateria de Tommy Aldridge sem baquetas? Aos que vieram de longe, a memória daquele janeiro de 1985, que entrou para a história como o principal marco roqueiro na história do Brasil. O jorro final veio na forma de “Burn”, o arrasa-quarteirão do Deep Purple, banda que graduou David Coverdale nos anos 70 e o preparou para o estrelato mundial. Passados pouco mais de uma hora, a despedida. Sabemos que a banda só não volta se acabar.

Texto originalmente publicado na Rock Brigade Magazine em 30 de setembro de 2019.


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