Em entrevista exclusiva, Rudy Sarzo fala sobre Quiet Riot, Ozzy, Dio e Whitesnake


Depois do papo em conjunto com o vocalista/guitarrista Riccardo De La Cuesta e o tecladista Fabio Laguna para falar sobre “Prophets Word”, novo single do grupo equatoriano Anima Inside que reúne uma legião de monstros do heavy metal latino-americano, o gigante baixista Rudy Sarzo topou responder a algumas perguntas sobre sua carreira, que inclui passagens por bandas que entraram para a história. Veja só!


Fotos: Divulgação e Facebook.com/officialrudysarzo


Marcelo Vieira: Existe um álbum, entre os muitos de que você participou, que você gostaria que fosse mais reconhecido pelos fãs?

Rudy Sarzo: Depois de ter um álbum em primeiro lugar [nas paradas da Billboard], o primeiro disco de estreia de heavy metal a chegar ao número 1 [nos Estados Unidos], o que mais eu poderia querer? Isso é uma bênção! Quando fizemos o disco [“Metal Health”], esperávamos vender 50 mil [cópias] para que pudéssemos fazer outro. A vontade era essa: fazer outro disco. E depois outro. E mais outro. Isso é o que importa para mim. Não se trata de correr atrás de gravar o melhor disco já feito; isso não seria honesto nem sincero de nossa parte. O que eu queria era fazer música e, quando faço música, meus ouvidos estão atentos ao que os outros músicos estão tocando. Essa é a música que vem de mim; é o resultado dessa conversa. É assim que vejo fazer música; é assim que sempre fiz e sempre farei. Esperávamos vender 50 mil cópias, ponto. Não fizemos o álbum pensando que ele entraria para a história. Na verdade, isso nunca passou pelas nossas cabeças.


MV: Já que você mencionou o Quiet Riot, visto que Kevin DuBrow e Frankie Banali não estão mais entre nós, você vê sentido em a banda continuar sem os dois?

RS: Trinta e oito anos atrás, quando Randy Rhoads faleceu, eu não tinha maturidade. Eu não sabia muitas coisas que sei agora. Hoje entendo a responsabilidade de cada músico que é deixado para trás quando seus companheiros de banda morrem. Cabe a nós manter sua memória e sua música vivas. Se não fizermos isso, acabou. Acaba também a autenticidade da coisa. Porque estávamos lá, fomos parte dessa criação, e trazemos isso conosco. Sei como é tocar “Crazy Train” com Randy Rhoads; eu estava lá. Às vezes participo de shows tributo ao Randy; shows completos com músicas que ele compôs e gravou, principalmente com o Ozzy [Osbourne]. É provável que eu seja o único cara [presente] que chegou a tocar com o Randy; portanto, é minha responsabilidade conferir essa autenticidade e compartilhá-la com todos que desejam celebrar a memória do Randy, seja o público ou os demais músicos.


MV: Você já esteve no Brasil inúmeras vezes como integrante de várias bandas diferentes. Lembro de ver você ao vivo pela primeira vez com o Dio em 2006 e, depois, você voltaria com Blue Öyster Cult, Queensrÿche e até mesmo solo. Qual dessas vindas para cá foi a mais especial?

RS: Com certeza, [a vez com o] Dio. Ronnie James Dio é provavelmente o ser humano mais especial e mágico que já conheci e com quem já toquei. Todas as coisas maravilhosas que você ouve sobre Ronnie são verdadeiras e muito mais. Aprendi muito com ele, não só sobre música, mas sobre ser um ser humano. Sinto muita falta dele. 


MV: Unindo os tópicos das duas perguntas anteriores, recentemente você colaborou com a banda brasileira No One Spoke num tributo ao Ronnie, certo?

RS: Sim, fui convidado pela banda para participar de uma versão de “Rainbow in the Dark”. Ronnie sempre ficava lisonjeado com esse tipo de homenagem vinda de outros músicos. O nome disso é gratidão. Ouvi o som da banda e achei incrivelmente diferente; era algo como uma cantora de ópera cantando a música do Ronnie, e ele adoraria ouvir isso. Então, eu basicamente participei como uma forma de agradecê-los, em nome do Ronnie, por gravarem essa música. 


MV: Você sempre parece ficar um pouco emocionado quando fala sobre Ronnie. Tendo em vista que você trabalhou com ele e com Ozzy, quais são as principais diferenças entre os dois?

RS: São dois tipos diferentes de gênio. Não estaríamos mencionando os dois na mesma frase se eles não estivessem juntos no alto escalão. Mas eles são muito diferentes; o que é ótimo, pois não precisamos de clones. Ronnie e Ozzy são tão diferentes quanto possível, mas que música maravilhosa eles criaram, tanto solo quanto com o Black Sabbath!


MV: Você tocou na que muitas pessoas consideram a melhor formação do Whitesnake de todos os tempos. Você acha que essa versão da banda poderia ter ido mais longe, durado mais tempo, gravado mais discos e feito mais turnês?

RS: Quando essa versão da banda acabou, o grunge estava bem no comecinho. Então, não importa quão bom o álbum [seguinte ao “Slip of the Tongue” (1989)] teria sido, pois o foco nos Estados Unidos estava no grunge. Não acho que teria sido apreciado como deveria. Então acredito que paramos na hora certa! [Risos]


MV: Esse timing impediu vocês de serem varridos para debaixo do tapete! [Risos]

RS: Você tem que levar em consideração que o Whitesnake era enorme em todo o mundo, exceto nos Estados Unidos, até que um certo empresário [John Kalodner] e uma certa gravadora [Geffen Records] se uniram e disseram: “OK, vamos criar uma versão do Whitesnake que seja apropriada para a MTV”, o que não era a intenção original [da banda] nos anos 70, quando a [formação] original se reuniu.


MV: Us Festival em 1983 com o Quiet Riot ou Donington Monsters of Rock com o Whitesnake em 1990?

RS: Dois momentos muito diferentes, mas ambos inesquecíveis. Donington foi meio que a despedida, porque sabíamos que a banda ia se separar no final da turnê. Foi um ótimo show, mas com um gosto meio amargo. Já com Quiet Riot foi o começo. Tocar em um evento como o Us Festival não seria sucesso garantido; apenas fizemos um show para um monte de gente que tinha ido ver o Van Halen [risos]. Fomos adicionados [ao line-up] dois dias antes do show. Tocamos ao meio-dia. Não houve planejamento nem grandes ideias do tipo “vamos fazer isso ou aquilo outro”. “Ok, vocês querem fazer o show? É daqui a dois dias. Beleza, comprem as passagens aéreas, voem até lá, façam o show e depois deem o fora.” E foi isso que fizemos, porque tínhamos um show [marcado] em outra cidade no dia seguinte. Portanto, não houve celebração, nem festa, nem nada; foi apenas um grande show sobre o qual depois ficamos pensando: “Uau! É sério que tocamos para tanta gente assim?” [Risos]. Tudo passou num piscar de olhos!


MV: Por fim, eu gostaria de saber se haverá uma continuação para o livro “Off the Rails” (2006), agora falando da sua carreira pós-Ozzy. 

RS: Estou trabalhando em um novo livro, sim. Um livro de colorir, que virá com lápis de cor [risos]. Escrevi o “Off the Rails” especificamente para esclarecer informações incorretas sobre o acidente que matou o Randy. Havia muitas teorias. O que acontece é que uma mentira se torna verdade se for repetida por tempo suficiente sem que ninguém a conteste. Escrevi o livro apenas para esclarecer tudo. Mas para fazer isso, precisei começar do início. Tinha um propósito específico em dedicar um ano e meio da minha vida para escrever o livro; fazer justiça ao meu colega de banda e amigo querido a quem devo minha carreira. Se não fosse por Randy ter me recomendado a Ozzy e Sharon [Osbourne], talvez você e eu não estivéssemos tendo essa conversa hoje.


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