“Rivalidade do bem”: Richie Kotzen fala sobre álbum em parceria com Adrian Smith


A união de forças entre Adrian Smith e Richie Kotzen é o tipo de coisa que todo entusiasta da guitarra sempre sonhou, embora nunca tenha se dado conta até ver com os próprios olhos. “Smith/Kotzen”, o álbum fruto dessa parceria, chega às plataformas digitais hoje, sob altíssima e justificada expectativa: o trabalho é excelente; nove faixas essenciais que são a prova de que os dois, donos de estilos tão diametralmente opostos, foram, de certa forma, feitos um para o outro. Após uma manhã inteira ouvindo o disco repetidas vezes, conversei com Richie por telefone a fim de obter mais informações sobre o que já é um forte candidato à lista de melhores do ano. Confira!

Transcrição: Leonardo Bondioli
Fotos: Divulgação

Obviamente, Richie e Adrian já tinham ouvido falar um do outro ou mesmo ouvido trabalhos um do outro. Mas quando a dupla, de fato, se conheceu? “Faz uns nove ou dez anos”, recorda Kotzen. “Nos tornamos amigos, nossas esposas idem. Às vezes ele vinha a Los Angeles e nossas sociais na minha casa viravam palco de jam sessions. Tocávamos alguns covers e desenvolvíamos algumas ideias sem compromisso. Até que alguém sugeriu que tentássemos gravar algo juntos.”

Richie se refere ao disco como “o mais fácil que já fiz em toda a minha carreira”. Pergunto o motivo. “É muito bom ter alguém com quem dividir os vocais principais e os solos de guitarra. Isso tornou o processo muito mais tranquilo e empolgante.” Sobre como essa divisão foi feita, ele explica: “decidimos que quem escrevesse tal parte a cantaria. Então, se Adrian escrevesse um verso, ele o cantaria, e comigo a mesma coisa. Mas no fim das contas acabamos burlando essa regra várias vezes. Experimentamos bastante no quesito vocal em muitas músicas até chegarmos ao resultado que se ouve.”


Como exemplos desse intercâmbio de ideias, Richie cita “Taking My Chances” como uma música que “começou com um riff trazido pelo Adrian e eu escrevi a letra” e “Running”, “outra ideia inicial do Adrian, só que o refrão é meu. Mas houve momentos em que apenas deixamos a coisa fluir, como em ‘Glory Road’.” Sim, concordo que muito do que se ouve no álbum parece fruto de horas de improvisações à procura do gancho ideal. Kotzen conta que “‘Til Tomorrow”, a música que encerra o disco, foi tomando forma conforme a gravação rolava. “Ficamos prolongando o final para que terminasse com um solo marcante que atesta a nossa ‘rivalidade do bem’.” [risos]


Além dos vocais e das guitarras, Adrian e Richie dividiram, também, o baixo. “Gravei [o baixo] de umas três músicas. Mesmo esquema das guitarras: quem tivesse a ideia para a linha [de baixo], experimentava. Se ficasse bom, ia lá e gravava.” Quais três músicas? “Não me lembro. Fico tão imerso no processo que tudo se mistura e somente depois eu acabo me dando conta, tipo, ‘ei, sou eu tocando ali!’” Já a bateria, Kotzen gravou inteira, exceto pelas música “Solar Fire”, que traz o colega de Iron Maiden de Smith, Nicko McBrain, nas baquetas, e a trinca final composta por “You Don’t Know Me”, “I Wanna Stay” e a já citada “‘Til Tomorrow”, que contam com o batera da carreira solo de Kotzen, Tal Bergman. “Na bateria faço o básico que eu tenha certeza que vá funcionar. Levadas mais simples e eficazes. Tem dado certo!”

Outra conexão com o Maiden vem por meio da presença de Kevin “Caveman” Shirley na produção. “Kevin é um baita sujeito”, comenta Richie. “Esteve conosco, embora a distância, durante todo o processo. Posteriormente, quando enviamos as músicas para serem mixadas [por ele em seu estúdio] na Austrália, mantivemos um contato mais diário. Mas toda a gravação foi feita por Adrian e eu.” Vale lembrar que o álbum ficou pronto antes de o mundo entrar em pandemia. “Tudo foi finalizado no começo do ano passado, antes dos lockdowns e dos fechamentos das fronteiras. Infelizmente, em virtude da pandemia, tivemos de adiar o lançamento para 2021.”


Se a ideia era aguardar até 2021 para que fosse possível cair na estrada, trago más notícias para a dupla. Ainda assim, a esperança é a última que morre. “Não vemos a hora de voltar a fazer shows. Queremos cair na estrada, sim. Só precisamos que as circunstâncias colaborem para que possamos fazer isso com segurança.” Enquanto essa volta aos palcos não acontece, que tal fazer como muitos outros e apelar para as lives? “Não sou muito fã do formato. Faz falta ter um público, ter pessoas para estabelecer uma troca, para interagir. Por enquanto, não vejo motivos para fazer uma live, mas quem sabe isso mude, dependendo de quanto tempo mais [a pandemia] dure.”


Por mais estrada que ambos tenham, será que conseguiram aprender algo de novo um com o outro? Richie avalia a experiência: “Felizmente nossa conexão se deu de maneira muito imediata e objetiva. Sobre aprender, eu diria que toda colaboração que envolve compartilhamento de ideias promove o aprendizado. Adrian transmite muita segurança, sabe exatamente o que quer e como chegar lá. Esse tipo de coisa só se obtém com anos e anos tocando. Essa maturidade foi, sem dúvida, inspiradora, um exemplo.” 


Contando as vindas solo e com o supergrupo The Winery Dogs, Kotzen contabiliza mais de cinquenta apresentações no Brasil. Para nós, é sempre ótimo recebê-lo. Mas e para ele, como é? “É fantástico! Amo tocar no Brasil! O público é sempre muito carinhoso e animado. Há muitos belos lugares para visitar, então sempre faço questão de ir a cada ano ou a cada dois anos. Era para eu ter ido [aí] ano passado, mas infelizmente não deu.” 

Sem previsão de lives nem de alívio por conta da pandemia, o que podemos esperar de Richie Kotzen para o restante do ano? “[Adrian e eu j]á temos três videoclipes lançados, todos com excelente resposta dos fãs em todo o mundo. Então, por enquanto, é isso; divulgar o disco por meio de entrevistas e matérias. É o que todo mundo que está lançando discos [na pandemia] está fazendo: falar sobre [o disco] com o máximo de pessoas possível. E torcer para que possamos fazer uma turnê logo, logo. Até lá, fiquem a salvo e juntos, mas separados.”

Saiba mais sobre o Smith/Kotzen acessando o site oficial do projeto.

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