ENTREVISTA: Terry Ilous comenta trajetória do XYZ e saída do Great White


Levei tempo até conseguir realizar a entrevista que você está prestes a ler. Também não foi fácil decidir o que perguntar para o cara que é um dos meus artistas preferidos. No rol das bandas que deveriam ter ido mais longe, o XYZ está em posição de destaque. Com dois álbuns lançados nos tempos áureos e uma série de outros, complementares, entre ao vivos, coletâneas e mesmo um de inéditas que é basicamente uma empreitada solo do vocalista Terry Ilous, o grupo, fundado na França em 1980, é responsável por um hard rock acima da média, reflexo da combinação dos talentos individuais de todos os envolvidos; em especial Terry, que, passadas três décadas do momento em que frequentou as paradas de sucessos, segue cantando um absurdo e mantendo-se ocupado. Aqui, o cara faz uma análise da trajetória do XYZ e revela como soube que sua passagem pelo Great White havia chegado ao fim. Boa leitura!


Fotos: facebook.com/TerryIlous / Divulgação


Marcelo Vieira: Em 2019, após tocar no Monsters of Rock Cruise, o XYZ deu início aos preparativos para um novo álbum de estúdio e uma turnê comemorativa, ambos previstos para 2020. Em que ponto do processo vocês estavam quando começou a pandemia?

Terry Ilous: Havíamos escrito cerca de quarenta músicas; umas para o XYZ, outras para minha carreira solo. Chegamos a gravar algumas demos, mas, infelizmente, devido ao lockdown, tudo foi interrompido. Tentamos retomar as gravações no final de 2020, mas mesmo na melhor das circunstâncias, gravar um disco dá trabalho. O fato de cada um de nós morar em um estado dificulta ainda mais as coisas. 


MV: O que dá para antecipar sobre o novo álbum?

TI: Este novo álbum nos dá a oportunidade de fazer as coisas como sempre quisemos. No passado, as gravadoras nos travavam muito. Agora, os fãs irão se surpreender com o que somos capazes de fazer.  


MV: Em que outros aspectos a pandemia impactou na sua rotina e como você tem lidado com as restrições?

TI: Ficar em casa tem sido o maior desafio para quem trabalha com música e entretenimento. Muitos artistas e casas de shows têm buscado opções para se manter. Vi muita coisa boa nas redes sociais, desde lives na sala de estar a bandas completas tocando sem público. Mas eu estou aproveitando para ficar com minha filha e compor novas músicas. Compus tanta coisa que é provável que boa parte delas nem chegue a ser gravada.


MV: A melhor parte da biografia presente no seu site oficial diz que você não planeja se aposentar tão cedo. Além de um novo álbum do XYZ, o que mais você está preparando? 

TI: Em janeiro do ano passado assinei com a Frontiers Records para trabalhar com o produtor Fabrizio Grossi em um novo álbum que está prestes a ser lançado. Espero que ainda este ano eu possa fazer shows com o XYZ e com o Legends of Classic Rock, banda que tenho com [o baterista] Greg D’Angelo (White Lion). Obviamente, darei continuidade às gravações do novo do XYZ e continuarei compondo para minha carreira solo. Aliás, acabei de lançar um álbum solo chamado “Hired Gun”, que na verdade é uma coletânea de músicas que gravei em álbuns de outros artistas, muitos dos quais fora de catálogo há bastante tempo. O que mais posso dizer? Gosto de me manter ocupado!



MV: Vamos agora voltar no tempo e falar um pouco sobre a trajetória do XYZ. No texto presente no encarte do álbum “Forbidden Demos 1985/1991” (2005) você afirma que nenhuma gravadora queria contratar a banda e que se não fosse por uma incrível coincidência vocês talvez não tivessem chegado aonde chegaram. Que “incrível coincidência” foi essa? 

TI: Parece roteiro de filme, mas vamos lá... Pat [Fontaine], o baixista, fundou o XYZ em 1980. Juntei-me à banda alguns anos depois. Tentamos a sorte na França, em Nova York, em Hollywood, e nada. Mudamos a formação dezenas de vezes nessas idas e vidas de um continente para o outro, pois ninguém estava disposto a continuar pobre ou tocar as nossas músicas. Quando nos mudamos para Los Angeles, tivemos a sorte de conhecer o famoso engenheiro de som George Tutko. Ele gostou tanto da banda que financiou e produziu a nossa primeira demo. Então, um belo dia, um amigo nosso chamado Pino estava andando de moto pela Sunset Strip quando deixou cair uma luva. Duas mulheres que estavam no carro atrás dele pararam, pegaram a luva e conseguiram entregar a ele no próximo sinal fechado. Uma dessas mulheres era Sarah Zulauf, que trabalhava na Enigma Records. Pino falou a ela sobre nós e ela demonstrou interesse. Ele saiu correndo até o orelhão mais próximo e pediu para alguém levar uma cópia da nossa demo para ele imediatamente. Sarah entregou a demo para Bill Hines, o dono da Enigma. O resto é história. O XYZ deve sua história a uma luva caída e a amigos que acreditaram em nós. 


MV: Também no encarte do “Forbidden Demos” você conta que há muitas músicas inéditas do XYZ prontas para serem lançadas. Quando os fãs finalmente serão presenteados com esse lançamento?

TI: Algumas dessas músicas já caíram na net, você pode ouvi-las no YouTube. É provável que Pat e eu lancemos esse material um dia, mas agora estamos focados nas músicas novas. Queremos conseguir dar aos fãs pelo menos mais um disco novo.



MV: Em entrevista ao autor Hall Laurel para o livro “Soundtrack of Our Youth: History of Hair Metal Music” (2018), Pat descreve a Sunset Strip como “um mar de cabeludos vestindo jaquetas de couro e botas de caubói, minissaias e meias-arrastão rasgadas”. Tendo em vista que esse cenário inspirou muitas músicas presentes nos dois primeiros álbuns do XYZ, como “Follow the Night” e “Face Down in the Gutter”, que outros aspectos você acrescentaria à descrição dada pelo Pat?

TI: Pat foi cirúrgico em sua descrição. Foi uma época de excelentes bandas, prazer sem limites e muita diversão. Onde se não em Hollywood você chegaria com nada além de um sonho e acabaria estampando capas de revista em todo o mundo? Éramos crianças na loja de doces definitiva. De falidos a contratados em questão de minutos. De não ter o que comer a ter limusines à nossa espera com uma mulher seminua no banco de trás. Tempos assim jamais se repetirão. 

Mas não era só isso. Muitas bandas icônicas surgiram na Sunset. Muita gente talentosa. Numa caminhada de ponta a outra da Sunset você poderia esbarrar com membros do Warrant, do Mötley Crüe, do Guns N’ Roses, do Extreme e de muitas outras bandas. Por mais que os jovens de hoje tenham a internet, acho que é muito mais difícil para eles serem notados. Há milhões de talentos natos nas redes sociais, mas é provável que a maioria deles nunca obtenha o devido reconhecimento. Nos anos 80, tínhamos clubes, flyers, representantes de gravadoras em busca da nova sensação do momento. Isso não existe mais, e eu duvido que volte a existir. 


MV: Na mesma entrevista, Pat diz que o relacionamento da banda com Don Dokken, que produziu o primeiro disco de vocês, não era dos melhores. Apesar de alguns atritos aqui e ali, como foi tê-lo, já um nome estabelecido na cena, como produtor?

TI: Gravações são assim mesmo. Chega um momento em que um discorda do outro. Acontece. Pat e eu sempre discordamos de algo. Eu dizia que tal coisa devia ser feita de tal modo. Ele achava que não. Don, por sua vez, discordava de ambos. Nós três contestávamos as determinações da gravadora. Isso se chama processo; você discute um pouco e depois passa. Aprendemos um bocado com Don. Veja bem, era o líder de uma das bandas mais bem-sucedidas da época nos ensinando na prática. Foi uma honra tê-lo ao nosso lado. E os resultados falam por si só. 



MV: Muitas pessoas acusam o XYZ de copiar o Dokken. Numa época em que, sim, muitas bandas soavam iguaizinhas umas às outras, vocês sofreram alguma pressão das gravadoras, Enigma no primeiro disco e Capitol no segundo, para que se adaptassem às tendências? 

TI: Todas as bandas eram obrigadas a seguir a “fórmula”, a tocar o tipo de som que funcionava. Sim, houve muitos embates com nossas gravadoras e, como os demais, tivemos de ceder. Um desses embates diz respeito ao segundo single do primeiro álbum. Nós queríamos que “Souvenirs” fosse o segundo single, mas a gravadora insistiu em “What Keeps Me Loving You”. Ambas as músicas são excelentes, mas nós acreditávamos que “Souvenirs” tinha mais potencial. 

Quando você entra no estúdio, a gravadora financia tudo na esperança de reaver o investimento, então é lógico que ela queira ditar as regras. A você, artista, cabe no máximo lutar para chegar num denominador comum. Fizemos o que estava ao nosso alcance. Mas se você ouvir a nossa primeira demo perceberá que o som era levemente mais blueseiro. Era daquele jeito que queríamos soar, mas a gravadora pensou que não seria comercialmente viável.


MV: O XYZ vendeu dois milhões de cópias em todo o mundo, teve três videoclipes na programação da MTV e fez turnês ao lado de Alice Cooper, Ted Nugent, Ozzy Osbourne e muitos outros. Ainda assim, vocês optaram pela separação após o lançamento do ao vivo “Take What You Can... Live” (1995). Por quê? 

TI: Eu não diria que nós optamos pela separação. A verdade é que a Capitol rescindiu nosso contrato no meio da turnê do “Hungry” (1991). Esse era o padrão da época: demissão em massa das bandas de rock e metal. A “década da decadência” havia chegado ao fim. Sem perspectivas para o futuro, o jeito foi nos separarmos.



MV: Músicos contemporâneos a você tendem a culpar o grunge pelo fim dessa era. Curiosamente, o XYZ chegou a tocar com Alice in Chains e Soundgarden na época...

TI: É verdade. Houve um momento em que o Rap e o Grunge dominaram a MTV. Ao metal restou apenas a faixa de meia-noite a uma da manhã. Os clipes passavam apenas no Headbanger’s Ball. Mas é assim que as coisas são. A música muda, os gostos mudam. Os excessos dos anos 70 e 80 já eram. Não é culpa do Rap ou do Grunge em si. As gravadoras exploraram aquele rock pré-fabricado o máximo que puderam. Um belo dia, se deram conta de que era muito mais lucrativo substituir essas bandas de arena por bandas de garagem e caras vestidos com camisas de flanela tocando violão. 


MV: Tem um ditado que diz que “A medida de um homem é como ele reage frente às adversidades.” Quais adversidades fizeram de você o homem que você é? Que lições você aprendeu em quase quarenta anos de carreira?

TI: Vivi altos muito altos e baixos muito baixos. Todos te amam pela música que você faz, mas para o mercado você só interessa quando está vendendo bem. Você precisa estar ciente disso. Aprendi a não dar nada como certo, pois tudo pode desaparecer num piscar de olhos. Você aprende a reconhecer, às vezes tarde demais, quem é seu amigo de verdade. É tudo uma grande festa enquanto há champanhes e limusines, mas quando isso acaba, são aqueles que ficam com você que realmente importam.


MV: Você dedicou o álbum “Letter to God” (2003) à memória do seu pai e do seu filho. Suas letras mais pessoais estão presentes nele. Se hoje, em 2021, você pudesse de fato escrever uma carta para Deus, o que escreveria?

TI: Acho que diria que ainda estou esperando por uma resposta! Ou talvez Ele já tenha até respondido e eu que não me dei conta! 



MV: A formação atual do XYZ conta com você, Pat, Tony Marcus na guitarra e Joey Shapiro na bateria. Tendo em vista que o grande JK Northrup foi meio que o seu braço direito no “Letter to God” e mixou e masterizou o “Forbidden Demos”, por que não o trazer a bordo em definitivo? 

TI: Joey, Tony, Pat e eu estamos juntos há quase trinta anos. JK fez a gentileza de gravar o “Letter to God”, ao lado do [baixista] Sean McNabb. Foi uma experiência e tanto, mas, para mim, equivaleu a gravar um disco solo. “Letter to God” foi a maneira que encontrei de me expressar durante um período muito complicado da minha vida. Pensando bem, não deveria ter sido lançado como XYZ, pois não há XYZ sem o Pat. Mas XYZ era como as pessoas me conheciam na época. 


MV: Você planeja voltar a trabalhar com o JK? E com Marc Diglio e Paul Monroe, guitarrista e baterista da formação clássica do XYZ, você ainda tem contato?

TI: JK é um ótimo artista e um ótimo amigo. Foi meu braço direito em muitos dos meus projetos, chegando até a escrever músicas comigo durante o meu período no Great White. Recentemente, ele me ajudou no “Hired Gun”. Trabalharemos juntos sempre que estivermos os dois disponíveis. 

Estive com Paul e [o também ex-guitarrista do XYZ] Bobby [Pieper], mas os outros ex-integrantes eu não vejo há anos. A correria do dia a dia fez com que perdêssemos o contato.



MV: Falando em Great White, no dia 9 de julho de 2018, você foi informado por e-mail que havia sido desligado da banda. O que houve? 

TI: Minha assistente foi acordada naquela manhã com mensagens de colegas da imprensa perguntando se eu estava bem. Ela ficou preocupada comigo, entrou na minha página no Facebook, mas não encontrou nada. Então ela entrou na página do Great White... e viu o que eles haviam postado. Depois de cerca de uma hora, ela me ligou e me acordou. Tínhamos tocado em Las Vegas no dia 7 e eu estava ficando resfriado. Ela perguntou se eu estava bem e eu não entendi nada. Então ela me contou que o Great White havia postado uma nota dizendo que eu havia sido substituído por um cara loiro chamado Mitch [Malloy]... Sinceramente? Pensei que fosse uma pegadinha. Até que levantei, abri o Facebook e vi a postagem... Então abri o meu e-mail e lá estava a minha dispensa. Fiquei perplexo, pois tínhamos acabado de voltar de uma turnê de duas semanas. Jantamos juntos na véspera. Nos abraçamos no aeroporto. Mas foi isso. 


MV: Na época, Mark Kendall e Audie Desbrow, guitarrista e baterista da banda, chegaram a falar algumas merdas na imprensa. Você chegou a ler algo?

TI: Não. De quê adiantaria? Infelizmente, muita gente “bem-intencionada” ficou enviando links para matérias etc. Sinceramente, não importa. É sempre uma droga quando alguém diz algo de ruim ou inventa coisas. Mas isso faz parte. Houve uma matéria de um cara que sempre respeitei, um cara que conhecia a banda, que dizia que eu tinha mandado mal por lançar um álbum solo [“Gypsy Dreams”] na sequência de um disco do Great White [“Full Circle”]. Meu queixo caiu. Não apenas porque o disco do Great White era também um disco meu, mas porque eu havia anunciado o meu disco solo quase um ano antes. Fazer o quê, né? As pessoas dirão o que der na telha. É difícil não ficar desapontado, mas é importante tentar se manter longe do alvoroço e manter o pensamento positivo. 




MV: Vamos falar então sobre o “Gypsy Dreams”. Nele, você regravou clássicos do pop e do rock em um formato acústico que eu, particularmente, adorei. De onde veio a ideia de gravar músicas como “Kill the King” (Rainbow) e “Heaven and Hell” (Black Sabbath) desta forma e como foi a recepção por parte dos fãs que muitas vezes torcem o nariz para esse tipo de experimento?

TI: Sempre quis fazer algo assim. Tendo ascendência latina, fui apresentado à música flamenca pelo meu pai. Mas também ouvia muito rock ‘n’ roll. Era questão de tempo para mim unir um ao outro. Até que numa edição do Monsters of Rock Cruise eu tive a oportunidade de ouvir o Heavy Mellow, grupo que faz covers de rock em formato latino. Os talentosíssimos Ben Woods e Luis Villegas me convidaram para dar uma canja e, cerca de um ano depois, começamos a gravar o disco. 

Em relação ao repertório, comecei pelos meus artistas favoritos, como [Ronnie James] Dio. Também escolhi músicas que fizeram parte da minha juventude, como “Boys of Summer” (Don Henley), e clássicos como “Whole Lotta Love” (Led Zeppelin). Experimentamos um bocado até chegarmos à lista final com as músicas que funcionavam melhor no formato. 

Quanto à recepção, acredito que alguns fãs não tenham sacado a proposta quando subi a pré-venda no meu site. As pessoas estão acostumadas a me ouvir cantando hard rock. Mas beleza. Vendi cópias o bastante para financiar boa parte dos custos do projeto. Recebi muitas mensagens encorajadoras. Muitos fãs se mostraram ressabiados, mas deram um voto de confiança e acabaram gostando do álbum. Mesmo que a ideia de misturar rock com música latina lhes parecesse bizarra, eles acabaram se permitindo descobrir algo novo. E era exatamente esse o meu objetivo. 



MV: Embora nunca tenha feito shows no Brasil, você pode ter certeza de que há muitos fãs da sua música por aqui. Para encerrar, que tal você mandar um recado para eles?

TI: Só posso agradecer pelo apoio que venho recebendo no decorrer dos anos. Todos os dias, até hoje, recebo mensagens de fãs dos quatro cantos do mundo; do Japão a América do Sul, do México a Austrália e muito mais. É por eles que sigo fazendo aquilo que faço. Enquanto houver quem ouça, farei música. Nós artistas, enquanto profissionais independentes, e todos aqueles que dependem da música ao vivo e das turnês para tirar seu sustento estamos vivendo um momento dificílimo. Da noite para o dia o nosso mercado parou. Então deixo aqui o meu pedido aos fãs: apoiem seus artistas preferidos participando de campanhas virtuais, contribuindo com as caixinhas das lives, participando ativamente nas redes sociais e adquirindo produtos. Somente com um esforço conjunto será possível manter o mercado vivo. E tenho fé de que logo logo estaremos curtindo shows juntos novamente. 


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