ENTREVISTA com Douglas Arruda (Lethal Fright)


Natural de Mogi das Cruzes e atualmente radicado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o vocalista e tecladista Douglas Arruda é exemplo de que os sonhos não envelhecem. Depois de anos de planejamento, ele finalmente tirou do papel o Lethal Fright, banda que começou há mais de duas décadas, primeiro como uma ideia, depois, como um ideal. No autobiográfico “Past Through the Future (The Desert)”, lançado em junho passado, ele apresenta um repertório que vai do heavy mais tradicional ao prog mais viajado e conta com convidados de peso, como Bumblefoot, Derek Sherinian e Milan Polak. Na produção, ninguém menos que Andria Busic, do Dr. Sin. Gustavo Sazes é quem assina a capa. Se o elenco empolgou, então se prepare para um papo dos mais empolgantes e abrangentes dos últimos tempos. Boa leitura!


Transcrição: Leonardo Bondioli

Fotos: Divulgação


Marcelo Vieira: Lethal Fright era o nome de uma banda que você teve lá pelos anos 90. Em 2018, você resolveu ressuscitar esse nome. Eu queria entender quando o que o torna tão especial a ponto de haver seu interesse em querer lhe dar uma nova vida.

Douglas Arruda: É realmente um nome muito especial, tem uma história muito grande comigo. Na verdade, Lethal Fright nos anos 90 era apenas um nome, não tinha banda; a banda só veio mesmo nos anos 2000. Ela tinha uma proposta bem diferente do que estou fazendo. O que acontece é que à medida que você vai tomando gosto pela música, conhecendo outras bandas, aquilo vai adicionando um ingrediente para você, pois são novas referências, novos estilos, linguagens... Eu tinha uma ideia mais dark quando a Lethal Fright surgiu, uma coisa mais com temática de terror, um viés meio diferente. Na época eu estava na escola, tinha ali meus quatorze, quinze anos, e um amigo que levou um livro na escola, o qual tinha a ver com terror e tinha um símbolo que parecia mais ou menos uma medusa e se chamava Lethal Fright. Me chamou muito a atenção porque não conseguia traduzir aquilo, mas de certa forma tinha uma sonoridade. Depois fui atrás, olhei no dicionário e achei intrigante, e daí mantive esse nome, tipo “o dia que eu tiver um projeto, eu acho que esse nome vai ser legal”. Então passei minha adolescência sonhando em fazer meu som, sempre comprando revistas e acompanhando as coisas com os amigos que gostavam também de música. Até tive umas experiências com banda na década de 90, mas nem considero essa época porque eu não era um instrumentista e não tinha condições realmente de tocar.


MV: Era muito embrionário né?

DA: Era muito embrionário, mas consistente, tanto que quase 25 anos depois, está aqui se materializando, então fico muito orgulhoso de estar vivendo essa realização. Quando surgiu lá no começo dos anos 2000, eu tinha a ideia de representar com Lethal Fright toda a minha história. Então concebi o primeiro logo, que tinha uma ponta que era como se fosse uma lança tipo um crucifixo, e era em referência a um outro projeto que tive chamado Silver Cross.

            Quando resolvi fazer esse resgate em 2018, a minha cabeça mudou um pouco com toda vivência, experiências e tal, e achei que talvez seguir por essa temática já não seria mais condizente com o que penso. Daí resolvi primeiro atualizar o logo, mas o nome sempre observei que era único. No disco tem uma música chamada “Lethal Fright” e ela dá um outro significado para esse nome. Ela elucida o nome. No caso, contei uma história que Lethal Fright é como um submarino, uma ameaça ou algo que está ali presente só que ninguém consegue ter certeza se ele está ali ou não, é um elemento furtivo, e ele precisa ser parado. Isso foi altamente inspirado no que está acontecendo na história do coronavírus, porque eu já tinha mais ou menos uma ideia de associá-lo com um submarino, e aí quando veio a história dele...


MV: Um vilão invisível, né?

DA: Exatamente! Gosto muito de temas militares, o que me favoreceu para juntar uma coisa com a outra.



MV: Quando ouço um disco pela primeira vez, procuro prestar atenção nas letras, mas, quando ouvi o seu álbum, não consegui fazer isso, porque, na verdade, o que me chamou a atenção de imediato foi que é um disco altamente técnico. E quando falo técnico não falo de um disco “virtuoso”; tem sua dose de virtuosismo, embora não seja exaustivo. Não passa aquela ideia de “música feita pra músico” que muitas vezes acaba acontecendo com discos de alto nível técnico. E uma coisa muito interessante é o vocal, não é o típico que se espera de repente de uma banda com influência do prog. Me lembrou muito o Ricky Warwick, até o Phil Lynott do Thin Lizzy, uma coisa mais clássica nesse sentido. 

DA: Esse material partiu de um sonho muito antigo. Sempre fui apaixonado por entender esse lado do artista. Então gostava muito de ler resenhas, de tentar entender o que funciona e o que não, pelo menos para o meu gosto porque cada um ouve de uma maneira, e eu tive sim alguns cuidados quando estava escrevendo o disco. Primeiro pensei em fazer algo que não fosse amarrado... não queria que ele fosse um disco conceitual, nem, de maneira alguma, clichê. Não me senti obrigado a falar de temas ou centrar as músicas de maneira mais convencional no meio do metal. Tentei trazer elementos até da minha vida, das coisas que vi ou ouvi, das experiências... e isso tudo me deu um conforto na hora de escrever o disco porque consegui trabalhar as músicas pela música.  “I Am Not Done with Your Story” é baseada em viagens, é um reflexo de coisas que vi nessa minha vida de viagens. Conheci 43 países sempre viajando a negócio, e a gente vê muitas coisas diferentes. Há pessoas que têm até o talento de, sentando-se do seu lado no avião, contar uma história e ela ser atraente. Tudo isso me inspirou a fazer música. Outra coisa interessante é que, à medida que desenvolvi as músicas, eu estava pensando já como álbum e qual o clima que queria. Então eu já organizava as músicas, tinha os títulos antes de terminá-las.


MV: A belíssima capa feita pelo Gustavo Sazes, com o deserto... Imagino que o deserto tenha a ver com onde você está radicado agora, né?

DA: Sem dúvida! O deserto, primeiro, é o lugar onde estou, as coisas que vi e ouvi aqui. Se você souber de história, os beduínos, por exemplo, são pessoas tribais e que hoje vivem nessa metrópole altamente tecnológica. Tem também um lado espiritual/religioso. Sou cristão e acredito que em algumas passagens na nossa vida, a gente é levado para o deserto a fim de passar por experiências difíceis, mas você mantém a fé, uma direção, e as coisas vão se tornar algo de valor que você leva para sua vida. Na minha adolescência, não era ninguém especial, mas sempre fui um cara sonhador e esforçado. O que quis retratar [na capa] foi esse olhar para a frente, não esquecendo das origens e pensando em uma coisa futurista... 



MV: Além de um capista responsa, seu disco tem uns convidados absurdos, dispensando total apresentação... Milan Polak, Derek Sherinian, Bumblefoot, os irmãos Busic... só feras! Como é que você estabeleceu contato com esses caras?

DA: A maioria dos convidados não estava nesse planejamento. Quando reativei essa ideia em 2018, fui para São Paulo e vi um anúncio do Andria Busic. Dr. Sin é uma banda que me inspirou muito. Quando vi esse anúncio, contatei o Andria e ele me respondeu. Já liguei para ele e a gente conversou, e olha só que interessante: Falei para ele: “olha, estou com essa música aqui, “My Pride My Hell”. A bateria é eletrônica, mas acho que o resto está legal”. Ele falou: “Não, vamos fazer esse negócio direito. Se você produzir comigo, o Ivan toca”. “Peraí, o Ivan Busic vai tocar na minha música?” Ele falou: “Vai. E é o seguinte Douglas, você tem outras músicas?” Falei que tinha, e ele: “Vamos começar então. Ajudo você e a gente toca esse negócio”.

            Então foi isso, a gente começou a trabalhar com o Andria, comecei a trabalhar nas composições, e quanto aos outros convidados a coisa foi acontecendo de maneira progressiva. Depois de oito meses envolvido no projeto tive a oportunidade de trabalhar com o Milan Polak, um guitarrista virtuoso, austríaco, e o conheci na internet. Ele estava oferecendo os seus serviços e eu conversei com ele. Falamos de gostos, estilo musical, e achei legal chamá-lo para fazer uma das músicas. A primeira que ele fez foi a “Once a Heart” e foi um trabalho fenomenal. O próximo músico que conheci foi o Bumblefoot, um cara tranquilo e muita gente boa. Falei para ele que estava trabalhando num material e que queria muito que ele fizesse uma participação porque é um guitarrista muito inovador, seria algo muito especial para mim. Passou para o próximo ano, no final de dezembro ou começo de janeiro, recebi a mensagem do Derek do nada: “Você está gravando um álbum?”, e eu falei que sim e que tinha uma música que eu gostaria que ele desse uma incrementada. Aí ele quis saber se eu tinha outras. Após ouvir o material, ele disse: “Olha, posso gravar o disco inteiro para você porque gostei muito do seu material”. Quando isso aconteceu, naturalmente os arranjos deram uma melhorada substancial.


MV: Então o disco foi se desenvolvendo, na verdade, né? 

DA: Isso, as músicas, todas elas, aconteceram em menos de 12 meses. Na segunda metade de 2019, eu já estava com mais material. Liguei para ele e falei: “Quer saber? Vamos fazer um álbum completo”.



MV: O disco vai sair em formato físico? Você está com algum contrato com gravadoras gringas?

DA: Não, não. Esse trabalho é totalmente independente. Não conversei com ninguém até o momento e meu foco é fazer música, ter um conteúdo, vamos dizer assim, apresentar aquilo de que a gente gosta honestamente. Quanto à publicação de mídia física, depende muito da recepção. Nas plataformas digitais de hoje em dia, graças aos algoritmos, estou conseguindo ver que o álbum está tocando em vários mercados diferentes, que as pessoas estão adicionando nas suas playlists.


MV: Pelo que você pôde ver até agora em termos de feedback, essa diversidade de uma música para a outra, essa coisa do seu vocal não ser bem aquilo que se espera para o tipo de som, está sendo mais bem aceito do que não aceito?

DA: Está realmente misturado. Você conseguir a opinião das pessoas não é um processo tão simples, precisa também da dedicação da pessoa de talvez até comentar, mas vejo mais com músicas pontuais. Por exemplo, “Past Through The Future”. Acho que pelo fato de ela ter o Aquilles [Priester] acabou chamando muito a atenção, e as pessoas estão tendo um certo choque com o estilo dela. Há músicas que estão sendo muito bem recebidas, como “My Pride My Hell”, que é uma música mais “padrão”. “Aquatic Trees” também recebeu bastante atenção. Eu esperava que a “Once a Heart” tivesse um pouco mais de atenção, mas não chamou tanto. Mas, enfim, estou me divertindo com essa experiência.


MV: Para encerrar, eu queria falar especificamente sobre Dubai porque aqui a gente tem uma noção de que, a gente sabe que Dubai é todo esse país super tecnológico e toda essa coisa super avançada, mas por ser um país de maioria islâmica, a gente tende a pensar que talvez não haja tanta liberdade individual, que talvez haja algumas amarras religiosas que não dê para romper. Então eu queria saber, pura e simplesmente, existe uma cena rock em Dubai?

DA: Existe! E há muitas bandas de som mais extremo, muitas bandas nessa região toda, na verdade, e até bandas do Irã, se você quer saber. Acho que a grande jogada aqui é o seguinte: você tem que realmente respeitar a religião porque ela é mesclada com a lei, com o sistema jurídico do país, e você não deve ofender religião nem outras pessoas, você tem que ser um pouco mais cauteloso com isso, ou seja, fazer talvez um trabalho que seja mais limpo, porque a gente às vezes com a cultura ocidental acha bonito ofender a Igreja ou as pessoas, e isso aqui não é uma coisa bem-vista. Então, tirando essa coisa de black metal, essas coisas mais pesadas, você pode fazer música. Vejo o pessoal fazendo música até de protesto, músicas mais agressivas, mas acho que tudo se adapta, o ser humano se adapta a tudo. 

            Na verdade, a gente está vivendo uma cultura de muita libertinagem no Brasil. Está ficando muito cômodo as pessoas ofenderem as outras. Aqui não dá para fazer isso. Se você vier aqui pra Dubai e mostrar o dedo do meio para a pessoa, vai preso. E você vive com isso, é tranquilo, até vejo com bons olhos muitas coisas sabe? É lógico que a gente acaba não concordando com tudo, mas a gente tem que acima de tudo respeitar. É um país que me recebeu muito bem, nunca vi nenhum tipo de preconceito, nenhum tipo de situação de “ah, você é um estrangeiro”, nada disso. Sempre fui muito bem tratado e vejo que as pessoas respeitam, existe essa cautela de você não ser agressivo com as pessoas e isso faz a sociedade tão melhor, tão mais fácil de se viver, em termos de segurança pública de tudo. Não que não existam problemas; claro que eles existem. Onde tem gente, tem problema. Mas há diferença.


MV: Então o Brasil tem muito o que aprender (Risos)

DA: Na verdade, todos temos que aprender, assim como nós estrangeiros estamos aqui porque eles têm que aprender com a gente também. Pensa essa visão assim de que quem observa, posso pegar o melhor de cada situação, as coisas prosperam, acho que essa é a melhor lição que peguei daqui, porque você tem gente de muitas nacionalidades. Como você faz as pessoas se comportarem? Você tem que ter um sistema, tudo bem, mas tem muito a ver de como eles tratam, porque, se eles tratassem mal todo mundo o tempo todo, não sei se esse país seria esse país. Estive em 43 países; na Europa, no Japão, andei no Oriente Médio, América Latina, Estados Unidos, vários lugares, e a gente vê muito isso, as sociedades mais evoluídas são as que têm essa cultura do respeito com o trabalho do outro. 


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