ENTREVISTA: Samuka decifra os ventos do leste no som do Medjay

 


Essa é a mistura do Brasil com o Egito. Antes que você que tem boa memória comece a cantarolar o restante mentalmente, saiba que isso aqui não é o Tchan, muito embora o som seja do tipo que faz a cobra subir. 

Infame, eu sei. 

Embora esteja na ativa há apenas quatro anos, o Medjay, de Belo Horizonte (MG), já acumula dois álbuns na bagagem: “Sandstorm” (2020) e “Cleopatra VII”, lançado em 8 de março. O grande suporte principal do grupo formado por Phil Lima (vocais e guitarra), Freddy Daniels (guitarra), Samuka (baixo) e Riccardo Linassi (bateria) é o power metal, mas dentre os pilares que mantêm a estrutura de pé estão a cultura musical do oriente e um enorme apreço pelos casos e causos da Antiguidade; “medjay” era a denominação da polícia do deserto no tempo dos faraós.

Por e-mail, Samuka procurou esclarecer as motivações por trás de tamanha mistura. Confira abaixo.


Fotos: Divulgação


Marcelo Vieira: Desde o álbum anterior, “Sandstorm”, percebo no Medjay essa tendência a explorar temáticas históricas, personagens que marcaram época e até mesmo fundamentos de outras culturas, predominantemente orientais. Gostaria de saber: História, em especial a Antiga, é cadeira de algum dos integrantes da banda? Tipo, algum de vocês, além de músico, é historiador, ou esse foco é apenas resultado de todos serem grandes entusiastas do assunto? 

Samuka: Sou historiador. Dou aulas de História e Filosofia há mais de vinte anos.


MV: O que, para você, as pessoas de hoje têm a aprender — ou deveriam aprender — com os mitos da Antiguidade? 

S: Os mitos da Antiguidade eram uma forma de as sociedades antigas explicarem a realidade. Todo mito possui lições de vida que atravessam épocas. Acreditamos que as histórias, seus personagens reais ou fictícios, dialogam com a nossa realidade. Exemplo disso é a Cleópatra VII, que levanta uma discussão sobre o empoderamento feminino, assunto de grande relevância para o nosso tempo.


MV: Está entre as “missões” da banda esse viés, eu diria, “educacional”? 

S: A proposta do Medjay é ir além da música e poder tocar a alma das pessoas, trazendo reflexões para os nossos dilemas existenciais e, claro, poder apresentar essa cultura tão rica em forma de arte.



MV: Embora o alicerce sonoro do Medjay seja o power metal, noto, em especial no disco novo, diversas texturas que fogem um pouco ao que se esperaria de um trabalho tradicionalmente power. Eu diria até que é isso que torna o som da banda tão interessante. Foi uma preocupação desde o início fazer algo diferente ou esses experimentos — vamos chamar assim — foram surgindo conforme o tempo foi passando e as músicas foram tomando forma? 

S: A ideia desde o início era fazer um power metal mais direto, fugindo um pouco do padrão. Quem escuta o nosso trabalho percebe algumas pitadas de thrash, de heavy tradicional. Não queríamos soar como várias bandas do estilo, que fazem discos de que as pessoas enjoam na terceira música por soar repetitivo. Dito isso, o feedback ao “Cleopatra VII” tem sido positivo, pois tem vendido bastante dentro e fora do Brasil.


MV: O que veio antes no “Cleopatra VII”: o fio condutor temático ou as músicas e, só então, vocês amarraram tudo? 

S: O conceito do álbum veio primeiro. Assim que eu escrevi o que queria abordar, as músicas começaram a ser criadas. O que facilitou é que eu componho o “esqueleto” das músicas já com melodia etc., e no estúdio a banda vai criando os arranjos.


MV: Por que Cleópatra VII? O que a torna uma personagem tão singular e interessante na sua opinião?

S: Primeiro para desmistificar a ideia de que Cleópatra VII foi quem foi porque era sedutora. Isso é um reducionismo machista que desvaloriza o legado dessa rainha. O tema do empoderamento feminino também nos interessa muito, pois todos desejamos uma sociedade igualitária, na qual todos usufruam dos mesmos direitos. Além de que, queríamos homenagear cada mulher que luta no dia a dia, que acorda cedo para buscar o sustento do lar e que, diariamente, precisa guerrear contra o sistema machista em que vivemos. Nosso recado é: “Todas vocês são Cleópatras!”



MV: “Stargate” traz uma citação de Albert Einstein sobre a correlação entre passado, presente e futuro. Que paralelos podem ser traçados entre o Egito de Cleópatra VII e o mundo de hoje?

S: A ideia central desse álbum é proporcionar uma imersão na cultura e na espiritualidade do Egito Antigo. Para isso, pensamos realmente numa viagem no tempo; conceito esse que essa civilização já vislumbrava muito antes da modernidade. Daí, cada ouvinte é convidado a “viajar no tempo”, a sentir uma atmosfera das épocas faraônicas através da ambientação das músicas e das letras. 


MV: Uma das coisas mais legais do disco é o contraste vocal na faixa “Sarcophagus”, que traz brilhante participação da Mayara Puertas, do Torture Squad. Acho sempre um acerto quando artistas de diferentes segmentos do metal se encontram e produzem algo único. Na sua opinião, foi-se o tempo em que os estilos não se misturavam ou ainda há um caminho a ser percorrido até que os fãs entendam que, no fim das contas, é tudo metal?

S: Hoje vivemos um momento diferente. Posso dizer isso porque passei dos 40. Houve um amadurecimento do público e das bandas. O Medjay é um exemplo por como tem sido ajudado por bandas já consolidadas. Ainda tem alguns “saudosistas” que sempre querem e quererão viver do passado. Mas vejo grandes mudanças nas últimas décadas e só temos a ganhar com isso.


MV: A parte gráfica do disco chama muito a atenção pela riqueza de detalhes, o encarte com os hieróglifos etc. Dá para ver que vocês pensaram em cada mínimo aspecto. Queria que você comentasse um pouco sobre a escolha da capa, quem idealizou todo o pacote, por assim dizer.

S: Nosso designer desde o início da banda é o Romulo Dias. Ele tem feito grandes trabalhos para bandas brasileiras e gringas. Eu idealizo uma ideia inicial e o Romulo vai lá e faz a mágica. Uma informação importante: a modelo da capa do álbum é esposa do designer!


MV: 2022 está quase no fim. O que 2023 prevê para o Medjay? 

S: Queremos explorar mais esse álbum. Em 2023, a tour “Cleopatra VII” irá continuar enquanto trabalhamos no terceiro álbum de estúdio que já está com todo o conceito escrito e algumas músicas já na fase de pré-produção. Esperamos tocar bastante no Brasil e na Europa no ano que vem.



Site oficial: https://medjayofficial.com/ 

Facebook: https://www.facebook.com/medjayofficial 

Instagram: https://www.instagram.com/medjay_official/

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCvIcO7qYaDoivdXIDcJoGLw


Comentários