ENTREVISTA: Distraught transforma colapso ambiental em denúncia sonora em novo EP

 


Após se definir com precisão quase programática em sua própria bio no Facebook — “Thrash Metal band formed in 1990, still strong and thrashing all around” — o Distraught reafirma esse espírito em inVolution, EP que vai além da agressividade musical para propor uma reflexão direta e incômoda sobre a regressão humana, o negacionismo e a autodestruição ambiental. A banda transforma acontecimentos concretos — como enchentes e queimadas — em matéria-prima artística, estruturando o trabalho a partir dos cinco elementos da natureza e consolidando-o como uma obra conceitual fechada, onde forma, conteúdo e urgência caminham juntos.

Nesta entrevista, o vocalista André Meyer e o guitarrista Ricardo Silveira detalham o processo criativo por trás de inVolution, explicam como o conceito foi se impondo naturalmente ao longo das composições e comentam o papel do metal como ferramenta de resistência em tempos de colapso social e saturação de informação. A dupla também fala sobre a identidade visual assinada por Marcelo Vasco, a opção pelo lançamento físico em CD como um gesto quase manifesto e o lugar do EP dentro da discografia da banda — não como ruptura, mas como síntese de tudo o que o Distraught construiu até aqui, apontando caminhos claros para o futuro.


Por Marcelo Vieira

Foto por Cristiano Seifert (@cristianoseifert)


inVolution parte da ideia de uma regressão humana. Em que momento vocês perceberam que não se tratava apenas de uma crítica social recorrente no metal, mas de um conceito que precisava ser estruturado como uma obra fechada?

André Meyer: Tudo começou sem nenhuma intenção de fazer um álbum conceitual. A primeira letra que escrevi foi “Bloody Mines”, ligada ao elemento terra e ao garimpo em Serra Pelada — mais um crime ambiental brasileiro que não podia ser ignorado. A ideia inicial era apenas reagir a um fato específico. Mas, quando conversei com o Ricardo, ele sugeriu que déssemos continuidade, abordando outros temas a partir de cada elemento. A partir daí, a coisa começou a ganhar outra dimensão.

Ricardo Silveira: Infelizmente, uma grande parte da humanidade não evolui — ela involui há séculos. Repete os mesmos erros, os mesmos descasos e as mesmas negligências em todas as áreas. É um processo de autodestruição. Em 2024, quando estávamos na pré-produção de inVolution, os noticiários mostravam, ao mesmo tempo, as enchentes no Rio Grande do Sul — que vivenciamos de perto em Porto Alegre — e as queimadas no Pantanal. O André já tinha escrito “Bloody Mines” e estava desenvolvendo “Extermination of Mother Nature” sob o impacto da enchente. Foi ali que sugeri uma letra sobre as queimadas. Nesse momento, o conceito do disco deixou de ser solto e se transformou em uma obra fechada.


O EP organiza suas faixas a partir dos cinco elementos. Esse conceito surgiu antes da composição musical ou foi algo que se consolidou à medida que as músicas iam tomando forma?

Ricardo Silveira: Isso foi se consolidando conforme as músicas iam tomando forma. No início, não sabíamos ao certo se seria apenas um single, um EP ou um álbum cheio. A ideia de um “EP conceitual” começou a surgir a partir da letra de “Extermination of Mother Nature”. Até então, tínhamos três músicas: “Bloody Mines”, “Extermination of Mother Nature” e “Truth Denied”. As duas primeiras já tinham letra, enquanto “Truth Denied” existia apenas com algumas ideias de bateria e riffs. Outro detalhe curioso é que a ordem das faixas no EP é exatamente a ordem em que fomos criando as músicas — isso aconteceu de forma totalmente natural, sem planejamento prévio.


Cada elemento costuma carregar simbolismos distintos em diferentes culturas. Houve alguma pesquisa simbólica ou filosófica por trás dessa escolha, ou o conceito nasceu mais de uma leitura intuitiva do colapso atual?

Ricardo Silveira: Quando o conceito do EP já estava fechado — ou seja, quando decidimos que cada letra se relacionaria a um elemento, mesmo que de forma indireta — comecei a aprofundar essa ideia. As músicas não carregam o nome dos elementos, mas dialogam simbolicamente com eles. A partir disso, tive várias conversas com um grande amigo meu, o Felipe Karasek, que é doutor em Filosofia. Essas trocas ajudaram a expandir o significado dos elementos para além do óbvio e a conectar o colapso ambiental e humano que vivemos hoje com leituras mais amplas, simbólicas e existenciais.


O título inVolution sugere um movimento contrário à ideia de progresso. Musicalmente, vocês enxergam esse EP como um retorno às raízes do thrash ou como uma evolução que assume formas mais agressivas e diretas?

André Meyer: A gente nunca trabalha pensando em repetir fórmulas. Em cada lançamento, buscamos evolução — nos arranjos, na produção, nos temas e na forma de comunicar. Mesmo quando a sonoridade é mais crua e direta, ela vem de um processo de amadurecimento.

Ricardo Silveira: Musicalmente, eu vejo inVolution como uma evolução natural dentro do nosso próprio estilo. A gente tenta sempre extrair o melhor do que a banda é hoje. A participação do Thiago Caurio (bateria) nas composições também somou muitas ideias. Neste EP, várias músicas surgiram a partir de ideias rítmicas criadas na bateria.


Em termos de composição, houve alguma faixa que exigiu um equilíbrio mais delicado entre mensagem e impacto sonoro, para que o discurso não se sobrepusesse à música — ou vice-versa?

Ricardo Silveira: A faixa que mais exigiu esse equilíbrio foi a instrumental “Aether”. Por ser um interlúdio, ela precisava cumprir uma função estrutural dentro do EP. Então, a mensagem teve que estar na escolha de timbres, na harmonia, na condução rítmica e nas dinâmicas — não na letra. Trabalhamos muito com tensão e liberação, variação de textura e transições, para que ela conectasse duas músicas sem quebrar o fluxo narrativo do disco.


Depois de mais de 30 anos de carreira, o que mudou na forma como vocês canalizam indignação e crítica social para a música? Existe hoje mais racionalidade ou mais urgência?

André Meyer: Já são 35 anos do Distraught escrevendo sobre tudo aquilo que nos causa desconforto: o descaso com o meio ambiente, todo tipo de violência, a hipocrisia política. O que mudou não foi a indignação — foi o cenário. Hoje, o mundo vive em sinal vermelho, em estado de alerta constante. Então talvez exista mais consciência, mais clareza… mas também existe muito mais urgência.


A produção do EP é densa, clara e extremamente direta. Em que medida as decisões de estúdio foram pensadas para servir ao conceito, e não apenas à agressividade sonora?

Ricardo Silveira: No nosso som, conceito e agressividade não se separam — eles se alimentam mutuamente. A ideia sempre foi fazer a produção soar como as letras. Queríamos pressão nas críticas sociais e pressão nos ouvidos. Cada decisão de estúdio foi pensada para deixar a mensagem mais evidente, mais incômoda e impossível de ignorar.


Trabalhar com produtores e técnicos experientes tende a refinar ideias. Houve algum momento durante a gravação em que uma sugestão externa mudou significativamente o rumo de uma música?

André Meyer: Nosso produtor, Renato Osório, já é praticamente o sexto membro da banda. Nos sentimos muito confortáveis trabalhando com ele.

Ricardo Silveira: Desde que começamos a trabalhar com o Renato, lá em 2015, no Locked Forever, sempre surgiram muitas sugestões durante as gravações. A visão do produtor é fundamental justamente por ser externa à banda — ele escuta a música de outro lugar. Às vezes, uma única nota diferente, uma mudança de execução ou de dinâmica já altera toda a estrutura da música. E isso, no estúdio, faz uma diferença enorme.



As letras de “Extermination of Mother Nature” e “Truth Denied” dialogam diretamente com negacionismo e crise ambiental. Vocês sentem que o metal ainda é um espaço eficaz para esse tipo de denúncia em um mundo saturado de informação?

André Meyer: O metal continua sendo um território de resistência. É o espaço onde expomos aquilo que o poder tenta varrer para debaixo do tapete: crimes ambientais, negacionismo institucional e a lógica do lucro acima da vida. Enquanto houver pessoas sendo silenciadas e a natureza sendo exterminada, o metal seguirá sendo uma ferramenta de denúncia.


O lançamento de inVolution ganhou novo peso simbólico quando relacionado a eventos como a COP30. Vocês enxergam o EP como um registro do seu tempo ou como algo que inevitavelmente permanecerá atual?

Ricardo Silveira: Vejo como as duas coisas. Se depois de trinta COPs ainda não houve uma evolução real, então esse discurso acaba se tornando atemporal. Existe muita fala, muita promessa — mas poucas atitudes concretas que realmente mudem o cenário.


A arte de capa assinada por Marcelo Vasco carrega forte impacto visual. De que forma a identidade gráfica dialoga com a narrativa do EP e com a história visual do Distraught ao longo dos anos?

Ricardo Silveira: O Marcelo Vasco é um grande amigo. Conheci ele em 2008, por meio do nosso brother Fabiano Penna (in memoriam), do Rebaelliun. A primeira arte que ele fez pra gente foi no álbum Unnatural Display of Art. Desde então, sempre que vamos começar uma capa, passamos para ele o conceito das letras, o clima do disco e as ideias centrais — e ele cria a partir disso. Depois, lapidamos juntos os detalhes. No caso de inVolution, a identidade visual dialoga diretamente com a narrativa do EP: é uma imagem de colapso, de regressão, de desgaste humano e ambiental.


Vocês acreditam que inVolution dialoga mais com a cena atual do metal brasileiro ou com a trajetória histórica da banda? Ou ele funciona justamente como uma ponte entre esses dois mundos?

Ricardo Silveira: Acho que ele funciona exatamente como uma ponte entre esses dois mundos. inVolution carrega a identidade construída ao longo da nossa trajetória, mas também conversa com a energia e as urgências da cena atual do metal brasileiro. É um trabalho que respeita o passado da banda sem ficar preso a ele e, ao mesmo tempo, se conecta com o agora.


Ao olhar para trás, onde vocês posicionam inVolution dentro da discografia do Distraught: como um ponto de síntese, de ruptura ou de reorientação artística?

Ricardo Silveira: Vejo inVolution como a continuidade natural da nossa criação. Ele não rompe com o que a gente é, mas também não repete por inércia. É um ponto de síntese: carrega tudo o que construímos até aqui e, ao mesmo tempo, aponta para onde a banda está indo.


O lançamento físico em CD surge quase como um ato de resistência em tempos digitais. O que esse formato ainda representa para vocês — estética, nostalgia, manifesto?

André Meyer: Eu, particularmente, gosto muito de ter em mãos o formato físico de um trabalho realizado. Infelizmente, a maioria das pessoas está deixando de valorizar esse tipo de aquisição. Nosso último material físico foi lançado em 2024, Southern Screams Live. Hoje, lançar um CD é quase um manifesto.


O que vocês esperam que o público leve consigo após ouvir inVolution: reflexão, incômodo, catarse — ou todas essas coisas ao mesmo tempo?

André Meyer: Esperamos que o público saia com tudo isso ao mesmo tempo: reflexão, incômodo e catarse. As nossas letras existem para provocar pensamento. A velocidade com que o planeta está se tornando inabitável por causa da negligência humana é assustadora — e fingir que isso é normal é parte do problema. Se inVolution incomodar, é porque ele está cumprindo o papel dele.


Para encerrarmos, o que 2026 reserva para o Distraught?

André Meyer: O EP inVolution foi lançado há pouco tempo, então ainda temos muito trabalho pela frente com esse material. Em 2026, queremos fazer mais shows e mostrar para nossos fãs como esse trabalho funciona ao vivo.


Ouça inVolution nas plataformas digitais em https://show.co/i4QffjU


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