ENTREVISTA: Pete Jupp fala de “Indiscreet”, “Brotherhood” e a volta do FM ao Brasil


Quatro décadas após o lançamento de Indiscreet (1986), o FM retorna ao Brasil para um compromisso especial: show único em São Paulo, no dia 5 de março, no Burning House, executando o clássico na íntegra. A apresentação celebra um dos marcos do melodic rock britânico e reafirma a longevidade de uma banda que atravessou modas, superou hiatos e mantém a chama acesa desde 1984. À frente da formação atual estão Steve Overland (vocal), Merv Goldsworthy (baixo), Pete Jupp (bateria), Jem Davis (teclados) e Jim Kirkpatrick (guitarra).

O momento é ainda mais significativo porque coincide com a divulgação de Brotherhood (2025), novo álbum de estúdio — e o primeiro da banda a ganhar lançamento físico no Brasil, via Shinigami Records. Em conversa exclusiva, Jupp fala sobre a força da “irmandade” que sustenta o FM há 40 anos, a redescoberta de públicos mais jovens, os desafios da era do streaming e o entusiasmo de revisitar Indiscreet faixa a faixa diante dos “loucos” fãs brasileiros.


Por Marcelo Vieira


O FM retorna ao Brasil em março para um show único em São Paulo. Após a última visita ter esgotado rapidamente, a reação surpreendeu a banda?

Era nossa primeira vez na América do Sul — e no Brasil. Não sabíamos o que esperar. Foi uma experiência incrível, aproveitamos cada minuto. Mal podemos esperar para voltar e repetir.


O público sul-americano encara o melodic rock de forma diferente do europeu?

Acho que são mais “loucos” (risos). Têm menos inibições que o público europeu. São intensos — e nós adoramos. Quanto mais loucura, melhor.


A relação com o Brasil mudou desde a primeira visita?

Só estivemos aí uma vez, então queremos construir algo duradouro. Estamos empolgados por tocar Indiscreet na íntegra — são 40 anos do álbum. É um show especial para nós.


Além de Indiscreet, o que teremos no set?

Vamos tocar o álbum completo e incluir músicas de Tough It Out (1989), aquelas que o público sempre pede. Não vou entregar tudo — é bom manter um pouco de suspense. Mas acho que ninguém vai se decepcionar.


Como evitar que um show de aniversário vire peça de museu?

Nunca pensei assim. Encaramos como celebração. Quarenta anos é uma marca e tanto. É difícil encaixar tudo no tempo disponível, então observamos o que os fãs comentam online e fazemos o melhor possível. Não dá para agradar todo mundo, mas haverá material novo e clássico.


As músicas ainda soam vivas?

Sempre tocamos “That Girl” e “I Belong to the Night”. Já “Love Lies Dying” e “Heart of the Matter” aparecem menos, então dá até mais empolgação quando voltam. O mais gratificante é ver gente querendo ouvir um disco de 40 anos.



Qual era o espírito do FM em 1986?

Havia muita inocência. Sentíamo-nos sortudos por assinar com uma major, que nos deu liberdade e pouca pressão. Produzimos o álbum nós mesmos — não sei se foi a melhor ideia (risos) —, mas a gravadora confiou nas demos. Cinco caras que nunca tinham produzido um disco entraram em estúdio e Indiscreet simplesmente aconteceu.


Vocês já sabiam do potencial de “Frozen Heart”, “Other Side of Midnight” e “That Girl”?

Algumas faixas surgiram após assinarmos com a CBS. Queríamos fazer o melhor álbum possível. Até hoje ouço que Indiscreet foi a trilha sonora da juventude de muita gente. É um elogio fantástico.


E a versão de “The Girl” gravada pelo Iron Maiden?

Ela se aproxima mais da versão original. A música mudou quando Steve e Chris [Overland, guitarrista] entraram na banda. Merv e eu vínhamos do Samson, mais heavy metal — com Bruce Dickinson nos vocais. Decidimos buscar algo mais melódico e começamos o FM. Após alguns falsos começos e formações instáveis, chamamos Steve e Chris, gravamos quatro demos e, 40 anos depois, estamos aqui.


“Shot in the Dark” nasceu no Wildlife [N.R.: banda que deu origem ao FM] e, graças ao tecladista Phil Soussan, virou clássico com Ozzy Osbourne. Você imaginava isso?

Não estive envolvido. Eu participei do primeiro álbum do Wildlife [Burning (1980)]; a música veio depois. Melhor perguntar ao Steve. Sobre Phil Soussan… digamos apenas que não é flor que se cheire.


E regravar Indiscreet para Indiscreet 30 (2016)?

Foi interessante. Queríamos produzir, mas preferíamos alguém de fora na mixagem. Na época, nosso empresário também era engenheiro de som e disse que a CBS queria que nós mesmos mixássemos. Não sei se isso era totalmente verdade. Sempre achamos que o som final não era exatamente como imaginávamos. Regravamos para nos aproximar dessa ideia. Ainda assim, há uma magia nas primeiras gravações — éramos jovens e entusiasmados. Muitos fãs preferem a versão original. Quem sabe? Talvez essa seja parte do encanto.



Após 40 anos, o que “irmandade” significa para o FM hoje — para além do título do novo álbum, Brotherhood?

É o que nós somos. Somos grandes amigos e passamos por muita coisa juntos. Esta formação, desde Metropolis (2010), já dura mais do que a original. Existe uma união muito forte entre nós — somos uma família, no melhor sentido da palavra. Foi daí que surgiu o título. E o Merv criou uma capa incrível, cheia de cores — algo diferente para nós, que normalmente optamos por artes mais escuras. Desta vez resolvemos “pegar os lápis de cor”.


Em minha resenha de Brotherhood, escrevi que a banda soa no auge mesmo no 15º álbum. Você sente que é um pico criativo?

Espero que não — espero que haja picos ainda maiores. Sempre tentamos compor as melhores músicas possíveis naquele momento. Normalmente escrevemos mais faixas do que o necessário. Mas só sabemos se o álbum é realmente bom quando os fãs o ouvem. Podemos achar que é o melhor da carreira; se o público disser que é fraco, acabou. Felizmente isso nunca aconteceu. É o retorno dos fãs que confirma se estamos no caminho certo.


O streaming mudou sua forma de compor?

Não diretamente. Mudou o negócio da música — e nem sempre para melhor. As plataformas pagam muito pouco por reprodução. A música fica disponível quase de graça, e quem a cria recebe pouco. Muita gente tentou retirar catálogos, mas depois volta atrás.

Quando eu era adolescente, ficava obcecado por Bad Company, Led Zeppelin, Toto. Guardava dinheiro para comprar o novo álbum, lia os encartes, absorvia tudo. Hoje a música é tão acessível que muitos jovens têm apenas uma música favorita de cada banda. Ao mesmo tempo, isso amplia horizontes. Só não reclamaria de ganhar um pouco mais com isso (risos).


O lançamento físico de Brotherhood no Brasil tem peso simbólico?

Sim. Na Europa sempre houve versão física. Quando voltamos do Brasil, perguntamos à gravadora por que nossos discos não estavam disponíveis aí. Houve desculpas pouco convincentes. Há pessoas que querem comprar e ter algo nas mãos, ler o encarte. Não é só apertar um botão.


“Living On The Run” é autobiográfica?

De certa forma, sim. Sempre fomos uma banda de estrada. Não foi escrita especificamente sobre nós, mas a conexão é evidente.


“Raised On The Wrong Side” traz um clima mais bluesy. Sintoma de maturidade?

Em Aphrodisiac (1992) já exploramos essa veia blues. Transitamos entre estilos conforme o álbum. Voltamos às raízes ali — e veremos o que vem no próximo.


Por que a dor ainda rende grandes baladas, como “Just Walk Away”?

Porque todo mundo já teve o coração partido. É algo universal. Você escreve a partir das próprias experiências.


“The Enemy Within” sugere introspecção maior conforme a idade?

Foi composta pelo Jem. Queremos ampliar os temas. Ele escreveu inspirado na obsessão das pessoas pelo celular — todos de cabeça baixa. É um convite para levantarmos os olhos. Dito isso… estou falando olhando para o telefone (risos).



O que manteve a chama do FM acesa no hiato dos anos 1990?

Com o grunge, o melodic rock ficou fora de moda. Decidimos dar um tempo, mas nunca deixamos de ser amigos. Em 2005/2006, Kieran Dargan insistiu para tocarmos no Firefest. Não tínhamos planos além daquela noite [N.R.: 27 de outubro de 2007]. Achávamos que 200 pessoas já seria ótimo — e esgotamos o Nottingham Rock City, com 1.500 fãs. Foi como se os Beatles tivessem voltado. Havia gente chorando. Saímos do palco atônitos. Ali percebemos que precisávamos continuar.


O renascimento do AOR, especialmente via Escandinávia, surpreendeu?

Sim. Temos visto público mais jovem nos shows. Boa música é boa música, seja melodic rock, punk ou o que for. As pessoas estão menos fechadas. E há excelentes bandas suecas — a cena é fortíssima.


De qual capítulo da trajetória você mais se orgulha?

Do Firefest — temíamos passar vergonha, mas foi mágico. Ao longo da carreira houve muitos marcos: o Marquee Club, o Astoria, a turnê com Bon Jovi, o Hammersmith Odeon. Depois do retorno, dividimos festivais com Def Leppard, Journey, Foreigner. Somos gratos. Lembro-me de olhar uma arena em Dublin e pensar: ‘Você é um sujeito de sorte, Pete. Nunca tome isso como garantido.’ E não tomamos.


Há algo ainda por conquistar?

Um número 1 nos EUA seria ótimo — embora improvável (risos). Mas nunca diga nunca. Três anos atrás, eu jamais imaginaria uma turnê na América do Sul. E aqui estamos.



Serviço: FM no Brasil

Data: 5 de março de 2026 (quinta-feira)

Abertura da casa: 20h

Showtime: 21h30

Local: Burning House – Av. Santa Maria, 247 – Água Branca, São Paulo – SP

Vendas: Meaple 


Comentários