ENTREVISTA: Kadavar comenta expansão para quarteto e novo álbum antes de show no Brasil


Quantos cigarros um homem adulto consegue fumar em 15 minutos? Simon Bouteloup, o “Dragon”, baixista do Kadavar, parece determinado a testar esse limite. Durante o breve bate-papo com este jornalista, o músico parecia dar cabo de um maço inteiro enquanto respondia às perguntas ao lado de Jascha Kreft, multi-instrumentista que se juntou ao grupo em 2023. A despeito da nicotina e do alcatrão pairando na conversa, o fato de ambos estarem em Berlim durante a entrevista via Zoom ao menos poupou este repórter da experiência de virar fumante passivo.

A presença de Kreft marca um novo capítulo na trajetória da banda alemã. Conhecido originalmente como trio, o Kadavar expandiu-se para quarteto com sua entrada — movimento que não apenas ampliou as possibilidades sonoras do grupo em estúdio, como também acrescentou novas camadas à performance ao vivo. Além de contribuir com instrumentos diversos, Jascha se firmou como figura importante na dinâmica de palco da banda.

Esse momento de transformação ganha forma no recém-lançado K.A.D.A.V.A.R. — sigla para Kids Abandoning Destiny Among Vanity and Ruin. Com o álbum debaixo do braço, o grupo retorna ao Brasil para um show único no país: dia 21 de março, um sábado, no Carioca Club, em São Paulo. A realização é da Agência Sobcontrole.

A conversa que você está prestes a ler deixa claro que Bouteloup e Kreft — provavelmente também em nome do guitarrista e vocalista Christoph “Lupus” Lindemann e do baterista Christoph “Tiger” Bartelt — atravessam uma fase de entusiasmo renovado. E mal podem esperar para apresentar ao público brasileiro as novas músicas que definem esse momento da banda.


Por Marcelo Vieira

Fotos: Marina Monaco / Divulgação


O Brasil costuma ser citado como um dos países onde o Kadavar construiu uma base de fãs particularmente fiel. Que diferenças vocês percebem na reação do público brasileiro em comparação com outras partes do mundo?

Simon Bouteloup: É um público extremamente dedicado — disso não há dúvida. E também precisamos considerar que, em comparação com outros países da América Latina, tocamos muitas vezes no Brasil. Fizemos vários shows por aí e também viajamos pelo país, então acabamos passando mais tempo no Brasil do que em outros lugares do continente. Talvez isso também explique por que existe uma base de fãs tão forte. Nós realmente investimos bastante tempo no país desde as primeiras turnês. Acho que a primeira vez foi em 2015, se não me engano.


A formação atual como quarteto marca um novo capítulo para a banda. O que mudou na dinâmica musical e também na relação entre vocês com a chegada de Jascha Kreft?

Simon Bouteloup: Bem, desde que o Jascha entrou, encontramos um equilíbrio muito bom no processo de composição. Ele trouxe muitas ideias novas e também novas músicas. Estamos num momento em que escrever juntos acontece de forma muito natural. Com quatro pessoas, na verdade, há bastante espaço para que todos contribuam, então o equilíbrio dentro da banda está muito bom agora.

E, claro, no palco isso ampliou bastante o nosso espectro. Sim, ele é um grande guitarrista, mas também contribui com segunda voz, sintetizadores e presença de palco. É como se ele trouxesse um verdadeiro “kit de ferramentas” para a banda — um pacote completo.


Desde a formação em Berlim, em 2010, o Kadavar construiu um som muito associado à estética do rock dos anos 1970. Em que momento essa abordagem “vintage” deixou de ser apenas uma influência e passou a se tornar a identidade central da banda?

Jascha Kreft: Bem, eu só estou na banda há dois álbuns, mas sou amigo deles e fã desde o primeiro disco. E tenho a sensação de que isso provavelmente nunca vai deixar de existir. Esse elemento sempre será uma raiz essencial da banda. Eu prefiro encarar isso não como algo necessariamente nostálgico ou como um revival, mas mais como uma escolha estética. É claro que o som remete imediatamente aos anos 1960 e 1970, mas, para mim, trata-se muito mais de uma abordagem atemporal do que simplesmente retrô.


Muitas bandas enfrentam a tensão entre evoluir artisticamente e permanecer fiéis à identidade que inicialmente conquistou o público. Em algum momento vocês sentiram que poderiam estar se afastando demais da essência que criou essa conexão com os fãs?

Jascha Kreft: Com I Just Want to Be a Sound (2025), nós tínhamos plena consciência de que talvez muitos fãs não se identificassem com esse lado da banda. Mas eu também tento olhar para isso da mesma forma que faço quando acompanho outras bandas. Às vezes você é fã de um grupo e acaba se decepcionando com o novo álbum. Ainda assim, eu procuro pensar que é positivo quando artistas permanecem fiéis a si mesmos e fazem exatamente o que querem fazer. Se isso acaba afastando um pouco daquela identidade central que algumas pessoas esperam, eu acho que, no fundo, isso é algo saudável.



O novo álbum K.A.D.A.V.A.R. soa como uma espécie de retorno às raízes da banda. Essa reconexão surgiu naturalmente durante o processo de composição ou foi uma decisão consciente de retomar a identidade original do Kadavar?

Jascha Kreft: Acho que, quando comparamos os dois últimos álbuns, dá para perceber algumas diferenças claras. Em I Just Want to Be a Sound trabalhamos com um produtor externo [Max Rieger], enquanto em K.A.D.A.V.A.R. o Tiga [Tausch] voltou a produzir — ele também esteve por trás de todos os álbuns clássicos da banda. Só o fato de ele estar novamente na mesa de som já influencia bastante o resultado. Então, de certa forma, isso aconteceu de maneira bastante natural. Mas, olhando para trás agora, é possível perceber bem essas diferenças.


O disco chegou apenas alguns meses depois de I Just Want to Be a Sound. Essa proximidade entre os lançamentos reflete um momento criativo particularmente fértil ou foi uma tentativa deliberada de mostrar diferentes facetas da banda em sequência?

Simon Bouteloup: Na verdade, simplesmente aconteceu assim. Havia três ou quatro músicas que tinham ficado de fora de I Just Want to Be a Sound, talvez porque não se encaixassem muito bem no conceito daquele álbum ou porque não tínhamos encontrado um lugar ideal para elas. Mesmo assim, queríamos gravá-las. Acho que começamos a partir dessas faixas, e o processo acabou avançando muito rápido.

Então não houve nenhum plano de lançar dois álbuns com poucos meses de diferença. Pelo contrário — isso acabou nos mantendo bastante ocupados e intensamente envolvidos no trabalho. Foi algo que aconteceu de forma totalmente espontânea.


O título do álbum — Kids Abandoning Destiny Among Vanity and Ruin [Crianças Renunciando ao Destino em Meio à Vaidade e à Ruína, em tradução livre] — sugere algo quase existencial sobre ambição, decadência e escolhas de vida. Qual foi a ideia conceitual por trás desse acrônimo enigmático?

Jascha Kreft: No geral, é um álbum bastante apocalíptico, com uma atmosfera de fim dos tempos. Primeiro pensamos em chamar o disco simplesmente de Kadavar e depois começamos a brincar com diferentes versões do acrônimo. Essa acabou sendo a que fez mais sentido para todos nós, porque combinava melhor com a música, com as letras e com o tema geral do álbum.



A faixa de abertura, “Lies”, começa com um riff quase doom antes de explodir em uma psicodelia expansiva. Vocês pensaram nessa música como uma espécie de manifesto sonoro para essa nova fase da banda?

Jascha Kreft: A história dessa música é interessante. Eu a escrevi bem no começo do período em que entrei na banda. Fui ao estúdio sozinho pensando: “Vou tentar compor uma música que soe como Kadavar”. Para mim, de certa forma, ela é quase uma espécie de “imitação” do estilo da própria banda na qual eu estava entrando.

Ela já existia na época em que estávamos compondo I Just Want to Be a Sound, mas os outros caras não se interessaram muito por ela naquele momento. Não sentimos que a faixa se encaixava no disco. Depois de algum tempo, voltamos a essa demo.

Lembro também que, quando estava trabalhando na gravação inicial, pedi ao Lupus que gravasse um solo de guitarra para a música. O solo que aparece no álbum é exatamente aquele primeiro take que ele fez, sem nem ter ensaiado antes. Ele simplesmente disse algo como: “Preciso sair logo para buscar meu filho na creche”, gravou o solo ali mesmo e pronto. No final, acabamos mantendo exatamente aquela gravação na versão definitiva.


Faixas como “Stick It” e “Total Annihilation” parecem recuperar parte do espírito mais solto e brincalhão dos primeiros anos do Kadavar. Essa atitude reflete o momento atual da banda?

Simon Bouteloup: Sim, acho que você está certo. Esse lado psicodélico e também a influência do krautrock sempre fizeram parte do som da banda. É algo que queremos continuar explorando e desenvolvendo. Ao mesmo tempo, existe também o lado mais pesado, mais metal, que faz parte do nosso DNA.

Às vezes colocamos um desses elementos mais em evidência e tentamos fazer algo novo a partir dele. Mas gostei da palavra que você usou: “brincalhão”. Acho que essa é uma ótima forma de descrever.


Berlim sempre foi um polo cultural marcado por experimentação e reinvenção. De que maneira o ambiente artístico da cidade influencia a mentalidade criativa do Kadavar?

Jascha Kreft: Bem, é a cidade onde todos nós vivemos já há uns 15 ou 20 anos — acho que o Lupus e o Tiga estão aqui há ainda mais tempo. É uma cidade incrível, que realmente nos inspira. Existe uma cena muito interessante, certos bares e lugares onde você encontra pessoas legais e troca ideias.

Simon Bouteloup: Além disso, há muitas bandas passando pela cidade o ano inteiro. Claro que existem grandes casas de show, mas ainda há uma cena muito viva em clubes menores — espaços que lutam para sobreviver, mas que continuam ativos e ajudam a manter essa cultura viva. Muitas bandas da Europa, e também da Austrália e dos Estados Unidos, passam por Berlim em turnê. Então temos a chance de vê-las tocando. A cidade acaba sendo um grande ponto de encontro para músicos do mundo todo.


Para encerrarmos, se vocês tivessem que explicar o som do Kadavar para alguém que nunca ouviu heavy rock usando apenas três álbuns de outras bandas como referência, quais escolheriam?

Jascha Kreft: Paranoid, do Black Sabbath, com certeza.

Simon Bouteloup: Talvez algum disco do Hawkwind — provavelmente Warrior on the Edge of Time.

Jascha Kreft: E Kick Out the Jams, do MC5.



SERVIÇO

KADAVAR EM SÃO PAULO

Data: 21 de março de 2026

Local: Carioca Club

Endereço: Rua Cardeal Arcoverde 2899, São Paulo, SP

Ingresso: clubedoingresso.com/evento/kadavaremsaopaulo-cariocaclub

Valores da meia entrada de estudante e solidária (mediante doação de 1kg de alimento não perecível):

  • Pista: 1º lote: R$ 180,00 | 2º lote: R$ 200,00
  • Camarote: 1º lote: R$ 220,00 | 2º lote: R$ 250,00


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