ENTREVISTA: Steve Hackett fala sobre turnê no Brasil, Genesis pós-Gabriel e projeto com Steve Rothery (Marillion)


O tempo parece voar em qualquer conversa quando o entrevistado é Steve Hackett. Uma entrevista pode até terminar na hora prevista, mas sempre fica a sensação de que ainda havia muito mais a explorar. Dono de uma trajetória singular, o guitarrista britânico é daqueles músicos capazes de transformar qualquer bate-papo em uma verdadeira aula de história da música.

Hackett ficou mundialmente conhecido como peça-chave da fase clássica do Genesis. Integrante do grupo entre 1971 e 1977, ele ajudou a moldar a identidade sonora da banda em discos fundamentais do rock progressivo, desenvolvendo uma abordagem de guitarra inovadora — marcada por técnicas como o tapping e por uma sensibilidade melódica que dialogava com música erudita, folk e experimentações com world music.

Paralelamente, construiu uma carreira solo extensa e consistente. Embora discreta quando comparada ao sucesso comercial de outros colegas de geração, sua discografia revela um artista inquieto, interessado em transitar entre diferentes linguagens musicais sem se prender a fórmulas. Fora dos palcos, Hackett mantém um perfil igualmente reservado — algo que contrasta com a riqueza e a diversidade de sua produção artística.

A nova visita do músico ao Brasil acontece em um ano especialmente simbólico (confira as datas ao final da matéria). Em 1976 — portanto, há 50 anos — o Genesis enfrentava uma de suas transições mais delicadas. Após a saída do vocalista Peter Gabriel, o grupo decidiu promover Phil Collins, até então baterista, ao posto de cantor principal. O resultado foi A Trick of the Tail, primeiro disco da banda sem Gabriel e, à época, seu trabalho mais bem-sucedido comercialmente.

Clássicos desse álbum ocupam papel central no repertório da atual turnê, que terá apresentações no Brasil. Mas, como era de se esperar ao conversar com Hackett, o diálogo não se restringiu apenas ao passado do Genesis. Durante a entrevista, o guitarrista também relembrou um projeto marcante de sua trajetória nos anos 1980: o GTR, supergrupo formado ao lado de Steve Howe, do Yes. O álbum homônimo da banda completa 40 anos em 2026 e segue sendo um capítulo curioso da história do rock progressivo e do AOR da década.

E houve ainda espaço para uma novidade. Hackett revelou que está trabalhando em uma colaboração musical com Steve Rothery, guitarrista do Marillion — parceria que deve render seu primeiro fruto até dezembro.

Boa leitura!


Por Marcelo Vieira

Foto de abertura: Daniel Croce (@toscroce)


Você está voltando ao Brasil mais uma vez para celebrar a era clássica do Genesis. O que há de diferente desta vez?

Deixe-me ver… desta vez estarei voltando com a banda argentina Genetics, que me acompanha nessa etapa. No momento, porém, estou excursionando com outro grupo aqui na Flórida. O primeiro show com essa nova formação acontece amanhã, em Ponte Vedra, nos Estados Unidos. Faremos quatro apresentações por aqui e depois participaremos do Cruise to the Edge [N.R.: festival de rock progressivo realizado em um cruzeiro marítimo]. Em seguida, parto para a América Latina, passando por cinco países: Brasil, Argentina, Peru, Chile e México.

Então, o que muda desta vez? Bem, a rota é um pouco diferente e inclui todos esses lugares. Mas, claro, a maior diferença — e a mais importante — é que eu continuo ficando cada vez mais jovem com o passar do tempo! (risos)


Ao revisitar esse repertório tantas décadas depois, o que ainda o surpreende musicalmente?

Acho que o motivo de esse material continuar funcionando tão bem é simples: ele foi muito bem escrito. Havia uma equipe de cinco compositores no Genesis, e todos eram capazes de escrever grandes músicas individualmente. Conseguimos alcançar isso tanto coletivamente quanto separadamente.

Quando você reúne várias pessoas que realmente querem compor, aumenta muito a chance de criar algo duradouro. Penso, por exemplo, no enorme sucesso dos Beatles ao redor do mundo. Aquilo não aconteceu por causa dos cortes de cabelo ou das roupas que usavam quando eram jovens — embora tudo isso também fosse divertido. O que permanece é a qualidade das canções.

Os discos continuam girando — seja em CD ou em vinil. Revolver (1966) continua “revolvendo”, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) ainda nos surpreende e Magical Mystery Tour (1967) segue sendo uma viagem na qual todos nós embarcamos. De certa forma, todas as bandas da época acabaram se beneficiando da revolução que os Beatles provocaram, porque eles elevaram o padrão do que uma canção poderia ser — o poder da narrativa, o poder da composição. Criaram algo belo e duradouro.


O show também inclui algumas músicas de sua carreira solo. Com um catálogo tão icônico do Genesis, como você decide quais canções suas podem conviver com esse repertório?

Essas escolhas acontecem de maneira relativamente rápida. Eu não visito a América do Sul com tanta frequência — normalmente apenas a cada poucos anos — então procuro incluir músicas que sei que o público já gosta.

Durante a pandemia, por exemplo, mantive contato com muitos fãs pelas redes sociais, e foram eles que me disseram quais músicas gostariam de ouvir ao vivo. No fim das contas, são os fãs que orientam essas decisões. Meu objetivo é entreter, não dar uma aula.


Você sente que seu trabalho solo ainda está sendo redescoberto por pessoas que inicialmente vêm aos shows por causa do Genesis?

Sim, isso é muito interessante. Quando voltei a tocar material do Genesis, percebi que passei a ter acesso a palcos que antes não estavam disponíveis para mim — inclusive arenas em alguns lugares.

Acho que isso reacendeu o interesse do público, porque levou as pessoas de volta ao ponto onde tudo começou para elas. Muitos enxergam que estou mantendo viva aquela chama — como se eu fosse o guardião desse repertório. Parte desse material acabou ficando de lado quando a banda entrou em sua segunda fase, mais alinhada ao que a MTV aprovava. Antes disso, tínhamos algo que eu gosto de chamar de “o Genesis aprovado por John Lennon”. Ele gostava de nós quando éramos estranhos — estranhos e maravilhosos.

Naquela época éramos praticamente uma “boy band”, muito jovens e ainda sem a menor ideia do que estávamos fazendo.


A turnê original do Genesis no Brasil, em 1977, durou duas semanas e passou por várias cidades — quase meio século atrás. O que você lembra com mais clareza daquela visita?

Na verdade, tudo começou quando visitei o Brasil em dezembro de 1974. Descobri algo curioso: o Genesis tocava nas rádios brasileiras — algo que praticamente não acontecia na Inglaterra naquela época.

Isso sugeria que já havia uma aceitação internacional, talvez especialmente entre públicos latinos — portugueses, espanhóis, italianos. Havia uma afinidade curiosa. Talvez por causa de certos elementos culturais ligados ao catolicismo ou à herança greco-romana presente em parte da música do Genesis. Havia algo épico ali, com uma dimensão quase eclesiástica, mas também um pouco de banda marcial.

Não era uma música blueseira nem pensada especificamente para o mercado americano. Tinha mais relação com tradições anteriores, próximas da música clássica. Talvez por isso tenha sido abraçada com tanto entusiasmo em lugares como Itália e Brasil.

Depois de ouvir nossas músicas tocando no rádio aqui, voltei para a Inglaterra e falei com Tony Smith, nosso empresário, dizendo que havia público para uma turnê. Dois ou três anos depois, em 1977, era exatamente isso que estávamos fazendo.

Na época, era antes mesmo de festivais gigantes como o Rock in Rio. O Brasil permitia a entrada de um artista internacional apenas a cada dois anos. Então havia um público extremamente faminto por música estrangeira.

Claro que o Brasil sempre teve uma tradição musical riquíssima. O mundo inteiro, por exemplo, ficou fascinado pela bossa nova nos anos 1960 — especialmente no universo do jazz. Aqueles ritmos incríveis me interessaram muito, e por isso, no início dos anos 1980, gravei no Brasil o álbum Total Immersion in Percussion (1984), explorando novas possibilidades para músicas baseadas em percussão.

Algum tempo depois, Paul Simon fez algo semelhante com The Rhythm of the Saints (1990).


A visita de 1977 pareceu mais aventureira ou caótica?

Não, não diria que foi caótica. Foi tudo muito bem divulgado. Ao mesmo tempo, éramos acompanhados por policiais à paisana, armados, que ficavam bastante preocupados quando saíamos sozinhos para caminhar pela cidade. Eles diziam: “Talvez vocês não devessem fazer isso”.

Mas, ao longo dos anos, acabei passando bastante tempo no Brasil, então acabei me acostumando com esse tipo de situação.



Quando você retorna ao Brasil, há algo que sempre procura fazer?

Tento reencontrar amigos. Também sempre procuro me reconectar com a música brasileira, porque há algo realmente mágico nos ritmos daí. Às vezes essa magia não está apenas no que é mais visível, como o Carnaval — ela aparece em muitos outros lugares.

Sempre admirei muito Ney Matogrosso. Lembro de conversar sobre ele com Brian May certa vez, quando estávamos no Rock in Rio. Tanto ele quanto Freddie Mercury achavam Ney absolutamente extraordinário — aquela presença cênica exuberante, com penas e figurinos, tudo muito teatral.

Depois vi um espetáculo dele mais intimista — acho que era Pescador de Pérolas — com músicos acústicos, incluindo Raphael Rabello no violão. Aquilo foi maravilhoso. Havia uma sensibilidade quase flamenca combinada com canções românticas belíssimas.

Aquilo me influenciou muito. Pensei: “Se eu puder fazer algo assim…”. Passei então a usar cada vez mais o violão de náilon em meus discos — tanto em álbuns acústicos quanto em gravações de rock. Essa influência também acabou aparecendo no Genesis no último período em que estive na banda. Em Wind & Wuthering, por exemplo, há violão de náilon.

A troca de influências acontece nos dois sentidos.


Este mês marca os 50 anos de A Trick of the Tail. Esse marco influencia a estrutura do seu repertório atual?

Em certa medida, sim. Não estou com o setlist que devo apresentar no Brasil neste momento — teria que conferi-lo —, mas sei que, por exemplo, quando fizemos Seconds Out (1977), havia um trecho específico inspirado em algo de A Trick of the Tail. Lembro que, dois anos depois de sair da banda, assisti ao Genesis tocando em Londres e eles apresentaram “Dance on a Volcano” em uma versão mais curta que fazia a transição diretamente para “Los Endos”. Para mim, aquilo foi o ponto alto do show, porque são músicas cuja composição e estrutura eu ajudei a construir. Pensei: “Uau, isso é incrível”.

Hoje eu tenho tocado esse mesmo arranjo em alguns shows por aqui, e é possível que façamos algo semelhante também com o Genetics. Ainda não ensaiei com eles para essa turnê, mas imagino que vamos trabalhar nessa ideia — talvez com algum acréscimo, um pouco mais… como dizer… mais elaborada.


Você é coautor de três faixas de A Trick of the Tail: “Dance on a Volcano”, “Entangled” e “Los Endos”. Olhando para trás, o que essas músicas representam na sua evolução como compositor?

Talvez haja ainda mais uma que poderia entrar nessa conta: “Ripples”. A melodia do trecho central veio de algo que eu desenvolvi no violão. Mas não insisti muito na reivindicação, porque o fato de eu já ter lançado um trabalho solo antes nem sempre me deixava exatamente em bons termos dentro da banda.

Lembro que o Phil Collins comentou certa vez que “Entangled” tinha algo que lembrava o universo de Mary Poppins, uma atmosfera meio “disneyana”. Aquela ideia partiu de mim e levei para o grupo. Quanto às outras músicas em que estive envolvido… meu Deus, agora não consigo lembrar todas de cabeça. Mas “Los Endos”, certamente.

A evolução nunca para. Estou sempre buscando uma música inclusiva, cheia de surpresas para quem escuta. É isso que me move. Às vezes você ouve algo e pensa: “Gostei muito disso”, sem perceber quem está tocando — e só depois descobre quem era. Eu sempre busquei o chamado “efeito Beatles”: você escuta algo no rádio, numa gravação simples em mono, e nem reconhece a banda de imediato. Depois descobre que eram os Beatles. Eles tinham essa ideia de usar “máscaras musicais” — reinventar o próprio som e só depois revelar: “Éramos nós o tempo todo”. Esse é o verdadeiro desafio: se reinventar de tal forma que o artista não seja imediatamente reconhecido, mas a canção seja reconhecida como algo cheio de espírito e, espero, com uma forte carga emocional.


Naquele período, você se sentia cauteloso?

Sim, muitas vezes. O Genesis funcionava de um jeito curioso: até o Tony Banks, que teve mais músicas gravadas pela banda do que praticamente qualquer outro compositor que conheço, dizia que detestava mostrar suas composições ao grupo. O Genesis às vezes reagia como juízes de patinação artística da Rússia — sempre prontos para baixar a nota, sabe?

Nem sempre éramos os melhores ouvintes do trabalho uns dos outros. Mas, no fim das contas, acabávamos cedendo, porque sabíamos que precisávamos trabalhar juntos.


Foi o primeiro álbum do Genesis sem Peter Gabriel e acabou se tornando o lançamento mais bem-sucedido da banda até então. A que você atribui esse avanço?

Acho que o Peter merece todo o crédito e reconhecimento por ter liderado a banda no início e por ter trazido o elemento teatral ao Genesis. Sem isso, talvez o Phil Collins não tivesse tido o caminho aberto para sair da bateria e assumir os vocais principais.

Uma banda vai acumulando impulso ao longo do tempo: constrói público, ganha atenção da mídia e vai criando aceitação. Naqueles dias, porém, o rádio não era fundamental para o sucesso do Genesis. Nós tocávamos incessantemente ao vivo pelo mundo inteiro. Era muito parecido com o que o Led Zeppelin fazia no início: shows e mais shows. Era assim que se vendiam discos.

Não existiam redes sociais, onde alguém pudesse simplesmente publicar que John Lennon gostava da banda — o que de fato acontecia. Mas não havia como divulgar isso instantaneamente. Naquela época você precisava pagar suas dívidas, trabalhar duro e esperar a sua vez.



Na época, a saída de Peter Gabriel chegou a parecer o possível fim da banda — especialmente considerando as pressões financeiras?

Sim, foi um período bastante difícil para o Genesis. Depois de The Lamb Lies Down on Broadway (1974), vários de nós decidimos se dedicar a projetos paralelos. Na verdade, quase todos se envolveram em outras coisas — com exceção do Tony Banks, que ficou um pouco irritado com isso.

Mas o fato é que todos nós precisávamos extravasar criativamente. Eu fui o primeiro a lançar um álbum solo, Voyage of the Acolyte (1975), que acabou fazendo sucesso. Isso me deu confiança: quando nos reuníssemos novamente como banda, eu sabia que o Genesis ainda tinha muito potencial. Se as pessoas gostavam do que eu fazia sozinho, provavelmente também continuariam interessadas no que o Genesis poderia fazer.


Naquele período, gravar Voyage of the Acolyte foi um gesto de independência artística — ou uma espécie de “seguro”, caso o Genesis não sobrevivesse?

Foi um momento em que senti que não podia depender da banda. Não podia contar que o Genesis gravasse minhas músicas, nem que encontrássemos rapidamente um novo vocalista — embora eu tivesse sugerido desde cedo que Phil Collins assumisse o posto.

Lembro que estive no primeiro casamento do Phil, e lá conheci o Jon Anderson [N.R.: vocalista da banda de rock progressivo Yes]. Conversamos sobre isso, e ele disse: “Vocês deveriam colocar o Phil como vocalista e trazer outro músico para cuidar da bateria”. Eu concordei imediatamente, mas não achava que os outros membros da banda aceitariam a ideia.

Então começamos a fazer audições com outros cantores, mas nada funcionava. Até que, em determinado momento, o Phil cantou “Squonk” — e tudo simplesmente se encaixou. O Jon Anderson estava certo, eu também estava. Os outros acabaram concordando, e o Phil se tornou um frontman extraordinário, correndo do microfone para a bateria o tempo todo. Um verdadeiro herói — provavelmente o homem mais ocupado do show business.


Existe uma narrativa persistente de que o rock progressivo já estava em declínio por volta de 1976. Na sua visão, isso é historicamente correto — ou uma simplificação?

Acho que é uma simplificação. Naquele momento, o punk estava prestes a conquistar a imaginação de um público muito jovem. Mas isso não significa que o progressivo tivesse desaparecido.

O que havia, na verdade, era uma imprensa fortemente inclinada a favor do punk. De repente, bandas como a nossa passaram a ser vistas como parte do establishment, algo que deveria ser varrido do mapa.

Entendo o ponto de vista de artistas jovens que talvez não tivessem recursos para contar com grandes músicos, cenários complexos ou espetáculos de luz — coisas em que nós investíamos bastante. Nem toda banda poderia simplesmente se tornar um Queen da noite para o dia.

Havia um certo preconceito contra aquilo que fazíamos, e nós tivemos que defender nosso espaço. Era uma questão de continuar lutando. Como na famosa frase atribuída ao almirante Nelson — “não vejo navios inimigos” [N.R.: referência corresponde à famosa frase atribuída a Horatio Nelson, associada ao episódio do “blind eye” na Batalha de Copenhague (1801), usada aqui de forma metafórica] —, era preciso seguir em frente, continuar batalhando. E, bem, ainda estou aqui, ainda faço barulho para viver.


Quando você deixou o Genesis, falou sobre a necessidade de autonomia. Sua saída foi mais emocional ou mais filosófica?

Acho que foi um pouco das duas coisas. Filosoficamente, eu precisava descobrir o que havia dentro de mim, entender até onde poderia ir por conta própria. E também precisava ver se conseguiria suportar emocionalmente a tempestade que viria. Lembro que fiquei eufórico por uns cinco minutos — e então percebi a dimensão da situação. Eu estava reunido com minha família quando caiu a ficha: agora você está por conta própria, de volta à estaca zero. E isso não é nada fácil depois de ter ajudado a construir algo que se tornou um sucesso internacional. Quando você se afasta disso, há um preço a pagar: a perda da certeza, o impacto na saúde, a instabilidade… tudo isso entra em jogo. Ainda assim, fico feliz por ter tomado essa decisão, porque, se não tivesse feito isso, jamais teria produzido a enorme quantidade de música que criei depois.


Em um sentido mais amplo, o que significa liberdade artística para você?

Para mim, liberdade artística ainda envolve responsabilidade. Não significa que você possa simplesmente fazer qualquer coisa sem critério. Significa ter a possibilidade de transitar entre estilos — ser “pangênero”, digamos. Ao longo do tempo, explorei música clássica, acústica, blues, música barroca, fusão… sempre com a ideia de que tudo precisa manter alguma coesão. Não importa se você se inspira em uma tradição local, em música do mundo ou em uma linguagem específica de determinada região: no fim das contas, a música precisa tocar emocionalmente o público. Se você tiver sorte, haverá uma plateia ali pronta para sentir isso.



O Genesis seguiu um caminho mais voltado ao pop nos anos 1980. Houve momentos em que você ouviu material posterior da banda e pensou: “Esse não teria sido o meu caminho”?

O que me chamou atenção foi quando ouvi uma música como “Abacab”, por exemplo, que acabou se tornando também o título de um dos álbuns posteriores. Achei que soava muito bem: a produção era ótima, a música tinha algo peculiar, interessante. Mas senti falta de um solo de guitarra — de algo que levasse a faixa a um próximo nível de energia. Penso que, se eu estivesse lá, provavelmente teria defendido isso.

Mas também acho que, quando você decide sair de algo, não faz muito sentido ficar imaginando como teria sido se ainda estivesse envolvido. Prefiro pensar que sigo carregando o espírito da banda adiante, mas sem as políticas internas que às vezes dificultavam o desenvolvimento de ideias individuais — e, consequentemente, coletivas. Muitas vezes vi ideias brilhantes serem descartadas dentro do Genesis — propostas do Peter Gabriel, do Mike Rutherford ou até minhas. E depois, quando essas ideias eram desenvolvidas fora da banda, o público reagia muito bem. Elas vendiam bem, eram apreciadas… mas precisavam acontecer fora da “nave mãe”. Era necessário se afastar um pouco, quase como um exercício de liberdade criativa, para depois olhar tudo de outra perspectiva.


O GTR representou um momento comercial importante, mas você já disse que depois quis seguir por um caminho menos mainstream. O que aquela experiência lhe ensinou?

Durante os anos 1980, muitos de nós que vínhamos de uma tradição de artistas voltados para o formato de álbum passamos a sofrer uma pressão enorme das gravadoras para produzir singles de sucesso. Em vez de pensar em discos como obras completas, os artistas passaram a reunir coleções de músicas que poderiam funcionar como potenciais hits. Assim, o álbum como conceito deixou de ser algo que pretendia mudar o mundo — passou a ser algo voltado a agradar os “deuses” da MTV e do rádio.

Quando formei o GTR com Steve Howe, estávamos muito conscientes dessas pressões comerciais. Ainda assim, acho que escrevemos juntos pelo menos uma canção realmente forte: “When the Heart Rules the Mind”, que acabou sendo nosso único grande hit. Alguns anos atrás, resolvi regravar essa música com Steve Rothery, com quem venho trabalhando recentemente e com quem gravei um álbum que deve sair ainda este ano. A ideia era revisitar a canção e superar algumas limitações de produção da época, fazendo algo que refletisse melhor o potencial que sempre senti que ela tinha. Também quis cantá-la com uma formação diferente: eu e Amanda Lehmann dividindo os vocais, criando uma terceira voz — algo que soa como um coro masculino, mas com uma nuance diferente. Foi uma experiência que gostei muito de fazer e acho que o resultado ficou realmente bom.


Olhando para trás, você acha que a estética do álbum do GTR envelheceu bem — ou ela reflete demais a época em que foi feito?

Algumas coisas resistiram muito bem ao tempo. Outras, quando ouço hoje, revelam uma mistura de experiência e inexperiência. Nos anos 1980, por exemplo, era difícil fazer minha voz se destacar no meio de toda aquela produção, mesmo eu sendo um dos principais compositores do projeto. Steve Howe era o outro grande compositor. Nós dois levamos praticamente todo o material para a banda — eu inclusive encontrei os músicos que formaram o grupo. Ainda assim, o processo não foi simples.

Quando olho para trás, sinto que muito do que faço hoje tenta justamente corrigir ou compensar as limitações que percebia naquela época — seja em termos de produção, seja em termos de decisões artísticas.


Com a aproximação dos 40 anos do lançamento do GTR, há algum plano — talvez uma edição deluxe — ou algumas coisas são melhores deixar no passado?

É uma questão interessante. Para falar a verdade, eu teria que conversar com o Steve Howe sobre isso. Não sei. Algumas pessoas já me perguntaram se eu teria interesse em reunir a banda novamente. Cheguei a comentar isso com ele, mas Steve disse que não estava interessado. Então, por enquanto, não há nada nesse sentido.

Mas, como aconteceu com o Genesis, nada impede que eu — ou qualquer outro envolvido — volte a gravar alguma daquelas músicas se sentir vontade. Certas canções continuam valendo a pena.


O que você pode antecipar sobre o álbum que está gravando com Steve Rothery?

Acho que a produção ficou muito boa. É um trabalho sem espírito competitivo — nós estávamos realmente tentando ajudar um ao outro. Todas as músicas surgiram de jams, de improvisações espontâneas. Compusemos juntos, cara a cara, em tempo real.

O resultado soa bastante cinematográfico, quase como uma trilha sonora. O Steve Rothery sempre teve muito interesse nessa ideia de criar algo com atmosfera de soundtrack, então seguimos nessa direção. No fim, decidimos fazer um disco totalmente instrumental. Poderíamos ter incluído vocais, mas optamos por não fazer isso.

Há coisas muito interessantes ali, e acredito que os fãs vão gostar. É bem diferente do que provavelmente aconteceria se dois guitarristas americanos se reunissem para gravar algo — talvez houvesse aquela tendência de tentar superar um ao outro tecnicamente. Recentemente participei de um projeto beneficente para ajudar vítimas dos incêndios florestais na Califórnia, com vários guitarristas conhecidos, e muitas vezes existe essa abordagem mais competitiva, quase como parceiros de sparring.

Com o Steve Rothery foi diferente. Foi mais um gesto de amor pela música.


Quando o público vai a um show seu hoje, o que você espera que as pessoas levem dessa experiência?

A intenção é sempre a mesma: sair deixando as pessoas em estado de êxtase. Sempre pensei que o subtexto da música — tanto ao vivo quanto nos discos — é curar as pessoas. A música é um remédio extraordinário. Existe algo de mágico nela. Música é memória, é emoção, e também pode ser um embaixador da paz, celebrando o melhor de cada cultura.

De certa forma, é como uma espécie de Nações Unidas da arte. Tornamo-nos unidos pela música — seja ouvindo algo do Brasil, da Argentina ou da Alemanha. Tenho grandes esperanças no poder da música.

Costumo citar o trabalho do neurologista Oliver Sacks, autor de livros como Tempo de Despertar, O Homem que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu, Um Antropólogo em Marte e Musicophilia. Ele descreveu casos clínicos impressionantes de pacientes com distúrbios neurológicos graves. Em um deles, uma mulher havia se tornado completamente imóvel, quase como uma estátua. Ela sofria de uma condição que a deixava incapaz de se mover. Mas, ao ouvir determinadas músicas que a tocavam profundamente, algo acontecia: surgia uma resposta física, um movimento que parecia libertá-la daquela prisão imposta pela própria mente.

Por isso acredito muito na música como força de cura — algo capaz de reenergizar as pessoas e atuar como um embaixador da paz. O mundo precisa de muita cura neste momento, especialmente em um período tão turbulento. E fico feliz em poder contribuir com isso de alguma forma.



SERVIÇO — Steve Hackett & Genetics no Brasil 2026


Rio de Janeiro

  • Data: 21 de março de 2026 (sábado)
  • Local: Vivo Rio — Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo
  • Abertura da casa: 19h
  • Início previsto: 21h
  • Classificação: 18 anos
  • Vendas online: Ticket360


São Paulo

  • Data: 22 de março de 2026 (domingo)
  • Local: Espaço Unimed — R. Tagipuru, 795, Barra Funda
  • Abertura da casa: 18h
  • Início previsto: 19h30
  • Classificação: 18 anos
  • Vendas online: Ticket360


Ambas as casas possuem estrutura padrão para shows internacionais, incluindo acessibilidade, áreas reservadas e serviços completos de alimentação e segurança.


Realização: Top Cat Produções Artísticas


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