Headbangers cariocas não têm um dia de paz — e as produtoras locais parecem fazer questão de manter a gente sempre à beira do sonho (e da frustração). Desta vez, porém, não foi apenas mais um show cancelado na capital fluminense. Tratava-se da aguardada estreia de Robert Lowe no Rio de Janeiro, voz marcante por trás de clássicos do Candlemass e do Solitude Aeturnus — e a expectativa, claro, estava nas alturas.
A turnê de estreia do músico como Disciple of Doom no Brasil teve as outras duas datas mantidas, o que deixa aos fãs cariocas a alternativa de recorrer aos bons serviços da Expresso do Sul — ou de qualquer outra empresa que encare os trajetos Rio–São Paulo ou Rio–Sorocaba.
A frustração pesa ainda mais durante a revisão da entrevista que você está prestes a ler. Lowe curtiu tanto o bate-papo que chegou a convidar este jornalista para uma cerveja quando desembarcasse por aqui. Vai ficar para a próxima, Robert!
Por Marcelo Vieira
Ao longo de décadas à frente do Solitude Aeturnus e, posteriormente, como vocalista do Candlemass, sua voz se tornou uma das mais reconhecíveis do epic doom metal. Como você define hoje sua identidade artística para além dos nomes das bandas?
Bom, vou tentar ser direto. Eu apenas faço o que faço. Sei que isso pode soar um pouco egocêntrico, mas não é o caso. A música precisa ser uma jornada para as pessoas. Quando alguém ouve algo, espera sentir aquilo, que represente um momento específico no tempo.
O doom metal frequentemente equilibra uma grandiosidade quase litúrgica com uma vulnerabilidade humana muito crua. Como você, pessoalmente, lida com essa tensão entre monumentalidade e fragilidade em suas performances?
Lidar com isso acaba sendo algo muito pessoal. O que eu faço — ou tento fazer — é refletir aquilo que estou sentindo. A maioria das músicas nasce desse lugar, seja individualmente ou em colaboração com os outros músicos. Mas, no fim das contas, quando estou no estúdio, no momento da gravação, eu faço o que for necessário para que aquilo chegue até as pessoas. Se não consigo transmitir isso, então não fiz bem o meu trabalho. Minha função é permitir que o ouvinte se conecte com a música, que ele se sinta parte dela.
Você acompanhou a evolução do gênero desde o underground analógico dos anos 1980 e 1990 até o cenário atual, dominado pelo digital e pelo streaming. Como mudou a forma como o público consome — e processa emocionalmente — o doom metal?
Você tocou em um ponto importante: o impacto do digital. Acho que muita gente acaba esquecendo que não basta apertar um botão para fazer uma guitarra soar bem. Não é só clicar e usar autotune. Claro, essas ferramentas podem ser úteis — não sou contra —, mas tudo depende de como você as utiliza. No fim das contas, o que realmente importa é o sentimento, aquilo que vem de dentro. Isso precisa ser natural. Qualquer pessoa pode ajustar o som com tecnologia, mas transformar isso em algo autêntico é outra história.
Sua abordagem vocal sempre carregou uma teatralidade controlada, sem cair no excesso operístico. Isso foi uma escolha estética consciente ou algo que se desenvolveu de forma orgânica ao longo do tempo?
Olha, sinceramente, não foi algo planejado. Volta àquilo que eu disse antes: é algo pessoal. Tudo o que eu faço é muito pessoal. Então, quando você me ouve cantar, quando escuta as letras ou a música que eu escrevo, aquilo tem um significado real para mim antes de ser, digamos, “entregue ao público”. É importante para mim como isso é feito, qual é a abordagem. Mas nunca houve um momento em que eu pensei conscientemente: “hoje vou fazer desse jeito”. Não. Vem daqui de dentro.
Do ponto de vista técnico, como você preservou potência e alcance vocal ao longo dos anos?
Bebendo e fumando. [Risos.] Mas, falando sério, quando você está na estrada por quatro, cinco, seis semanas — tocando seis, sete noites por semana —, o próprio ritmo dos shows acaba mantendo tudo em funcionamento. Você está cantando todos os dias, então a voz meio que se sustenta por si só nesse contexto. Fora isso, não tem muita preparação envolvida, não.
Em estúdio, você enxerga sua voz mais como um instrumento melódico integrado à massa sonora ou como um narrador que se destaca acima da base da banda?
Essa é fácil. Para mim, os vocais são tão importantes quanto a guitarra, o baixo ou a bateria. Tudo faz parte de um mesmo quadro. Ninguém está acima de ninguém. O objetivo é construir o todo, a música como um conjunto. Não existe isso de “aumenta minha voz”. Eu, normalmente, faço o contrário: peço para abaixarem! [Risos.] Não quero nem me ouvir tanto assim.
Tecnicamente falando, você abordou fraseado e dinâmica vocal de forma diferente no Candlemass em comparação ao Solitude Aeturnus?
Não, de forma alguma. Independentemente de ser no Candlemass ou no Solitude Aeturnus, tudo volta à questão da emoção. Pense na sua banda favorita: o que você quer sentir vem justamente dessa entrega — seja do guitarrista, do vocalista ou até dos backing vocals. O que realmente importa é a emoção que aquilo desperta em você. E isso não muda. Minhas emoções não mudam.
Sua entrada no Candlemass marcou um momento histórico, unindo uma banda seminal a uma voz já consolidada. Como você avalia artisticamente esse período hoje?
A gente sabe que o Candlemass sempre foi uma referência enorme — seja na linha do Black Sabbath ou de qualquer outro nome fundamental do gênero. O que o Leif, o Messiah, o Johan e o Mats Björkman construíram é algo a que você sempre pode voltar quando quer ouvir esse tipo de som. Então, artisticamente, aquilo continua muito forte. E espero que permaneça assim. É isso que você quer: que esse tipo de música continue relevante.
Sua saída do Candlemass gerou especulações e versões distintas. Sem entrar em detalhes pessoais, o que você acredita que, no fim das contas, determinou essa decisão?
Foi um processo… simplesmente aconteceu. Se você assiste a documentários ou acompanha a história de bandas como ZZ Top ou ABBA, vê que essas coisas acontecem. E aí você aceita, deixa seguir seu curso e continua em frente. Diferenças criativas? Não, de forma alguma. O Leif sempre soube exatamente o que queria, e todos ali sempre entregaram muito — Lars, Lasse, Mappe, Janne… todos. Eu ainda falo com eles, está tudo bem. Não foi uma questão criativa. Foi mais um momento específico em que os caminhos simplesmente se separaram. Agora, se me chamassem para tocar com eles amanhã? Com certeza eu iria. E espero que eles também aceitassem.
O que essa experiência te ensinou sobre liderança, colaboração e limites dentro de uma banda com um legado tão forte?
Limites passam por respeito. Você respeita o espaço do outro e entende o papel de cada um. Quando isso acontece, a colaboração flui de verdade. Trabalhar com esses caras foi assim. E, como eu disse, faria tudo de novo sem pensar duas vezes. No fim das contas, é sobre isso: respeito, parceria, valorizar quem está ao seu lado. Você cuida dos seus.
O doom metal nunca foi moldado para o apelo mainstream. Em um mercado guiado pela velocidade e por períodos de atenção cada vez mais curtos, como você enxerga a sobrevivência artística de um gênero que exige paciência e imersão?
É só ligar o rádio e perceber que aquilo não é o tipo de música que você quer ouvir. Então a pergunta volta pra você: o que você escuta? Qual é a sua banda favorita hoje? Outro dia eu estava conversando com a minha esposa sobre o Ace Frehley. Se não fosse por ele, eu provavelmente nem estaria fazendo isso hoje. Quando eu era criança — tinha uns cinco anos —, foi ele quem me fez querer tocar guitarra. Sem aquilo, sinceramente, não sei se eu teria seguido esse caminho. E é esse tipo de artista que define uma identidade. Gente que simplesmente diz: “é isso que somos, é assim que vamos ser”. E eu levo isso comigo. É assim que eu me vejo: isso é quem eu sou, isso é o que eu quero fazer. Se você gosta, ótimo. Se não gosta, tudo bem também. Você precisa aceitar que nem todo mundo vai se conectar. Se funcionou, ótimo. Se não funcionou, tenta de novo. É assim que as coisas seguem.
O “peso” é frequentemente romantizado no metal, mas também pode se tornar algo formulaico. Na sua visão, o que diferencia um peso autêntico de uma estética apenas sombria?
Boa pergunta. Quando a gente fala de escuridão, de algo épico ou pesado, para mim tudo volta à mesma ideia: a música precisa te levar a algum lugar. Precisa ser uma jornada. Qualquer um pode tocar um acorde de Mi e ficar martelando aquilo o dia inteiro. Mas isso, por si só, não significa nada. Agora, quando você ouve uma banda como Nevermore, você entende o que é intensidade de verdade. Não é sobre quantidade de acordes, nem sobre produção excessiva ou correções digitais. O que importa é a emoção que aquilo desperta em você.
Você sente que o metal contemporâneo expandiu suas fronteiras criativas ou acabou se acomodando em zonas de conforto?
Falando por mim — isso não é uma crítica a ninguém —, eu gostaria de ver mais elementos de blues e riffs mais simples voltando ao metal. Às vezes, uma única nota bem executada, com um bend cheio de sentimento, vale mais do que milhares de notas tocadas sem propósito. É disso que eu sinto falta: dessa conexão mais direta, mais visceral. De simplesmente tocar e deixar a emoção falar mais alto.
Ao olhar para a sua trajetória, você sente uma sensação de realização completa ou ainda há algo essencial que precisa expressar artisticamente?
Boa pergunta — acho que nunca tinham me feito essa antes. Sensação de conclusão? Não. Vou fazer isso até o fim da vida. Não existe “fechamento” quando a música faz parte de quem você é. Todos os dias surge uma ideia nova, algo diferente, um caminho que você quer explorar. Então não, não há conclusão. Isso simplesmente continua.
Você preferiria ser lembrado como “a voz de uma era” ou como um artista em constante evolução?
Outra ótima pergunta. Dá pra responder de duas formas, mas, sinceramente, isso não guia o meu processo. Eu não fico pensando em como vou ser lembrado. O que eu quero é criar algo que tenha impacto — como Black Sabbath, ou Ronnie James Dio, ou ainda Bruce Dickinson. São artistas que você reconhece na hora, só de ouvir. Mas esse não é o objetivo em si. Se as pessoas lembrarem de mim, ótimo. Se não, tudo bem também. O mais importante é entregar boa música.
Se pudesse deixar uma mensagem para a próxima geração de vocalistas que o veem como referência, qual seria?
Faça o seu próprio caminho. Seja qual for a sua identidade, siga por ela. Se aquilo desperta emoção dentro de você, então vale a pena. É isso que importa.
O que o público brasileiro pode esperar desses próximos shows: uma celebração do passado, releituras de diferentes fases ou a afirmação de um presente ainda inquieto?
Vai ser pesado, intenso, carregado de doom — e vai destruir. Celebrar o passado? Até certo ponto, sim. Mas eu não vivo preso a ele. Para mim, o importante é o agora. Amanhã já é um novo dia, com novas possibilidades. Não se trata de subir ao palco para tocar músicas de 40 anos atrás. O que fazemos é viver o presente — aqui e agora.





Comentários
Postar um comentário