ENTREVISTA: Anders Jacobsson fala sobre “In Somnolent Ruin” e a evolução do Draconian

 


Poucas bandas conseguiram transformar melancolia, peso e introspecção em uma identidade tão singular quanto o Draconian. Desde o início dos anos 2000, o sexteto sueco consolidou-se como uma das principais referências do gothic/doom metal ao combinar riffs arrastados, atmosferas soturnas e letras que transitam entre espiritualidade, alienação, perda e existencialismo. Agora, com o recém-lançado In Somnolent Ruin — disponibilizado em 8 de maio de 2026 pela Napalm Records —, a banda inaugura mais um capítulo importante de sua trajetória, justamente tendo o Brasil como ponto de partida da nova turnê mundial.

O show acontece neste sábado (16/05), no Carioca Club, em São Paulo, em apresentação única no país neste ano. A noite ainda contará com a participação especial da norte-americana Emma Ruth Rundle. A realização é da Mirror/AM em parceria com a Sellout Tours.

O novo álbum chega seis anos após Under a Godless Veil (2020), trabalho amplamente apontado como o auge comercial e artístico do grupo até então. In Somnolent Ruin também marca o retorno da vocalista Lisa Johansson, integrante clássica cuja voz ajudou a definir a sonoridade mais celebrada do Draconian. Sua volta recoloca no centro da experiência da banda o contraste entre seus vocais etéreos e os guturais profundos de Anders Jacobsson — dinâmica que continua sendo um dos elementos mais característicos da identidade do grupo.

Em conversa exclusiva, Anders falou sobre espiritualidade, alienação, o retorno de Lisa, o processo criativo do novo álbum e a relação quase transcendental que o Draconian construiu com o público brasileiro ao longo de mais de duas décadas de expectativa.

Boa leitura!


Por Marcelo Vieira

Foto: Therese Stephansdotter Björk / Divulgação


O retorno de vocês a São Paulo acontece após um show esgotado em 2023. Na sua visão, o que explica essa conexão tão consistente entre o Draconian e o público brasileiro?

Acho que essa conexão sempre existiu. Durante uns vinte anos, antes mesmo de finalmente tocarmos no Brasil, isso já era constante nas nossas redes sociais. Lá no começo dos anos 2000, quando ainda existia o chamado MP3.com, já apareciam comentários do tipo “Come to Brazil”. (risos) Levou décadas, mas preciso dizer que, quando finalmente chegamos aí, jamais vou esquecer o momento em que subimos ao palco em São Paulo pela primeira vez. A recepção dos fãs… a sensação de finalmente estar ali depois de tantos anos de espera… tudo pareceu uma conexão instantânea. Então, mal posso esperar para reencontrar todos. Estamos realmente ansiosos por isso.


Ainda te surpreende que uma banda de doom/gothic consiga criar vínculos tão fortes com regiões tão… tropicais?

É difícil para mim responder isso, porque eu não venho de uma região tropical. (risos) Mas acredito que esse tipo de música lida com temas muito pesados e profundamente humanos — questões contemplativas, dolorosas, coisas que tiram nosso sono à noite. Ideias sobre vida e morte, a mitologia ao redor disso tudo, a forma como religião e filosofia se conectam à nossa existência e ao significado das coisas.

Acho que é isso que nos conecta, independentemente de vivermos em regiões tropicais ou não. Talvez os escandinavos tenham essa forte tradição ligada ao black metal e ao death metal muito por causa da nossa natureza, do nosso folclore antigo e dessa conexão com o passado. Mas sinto que o que realmente une as pessoas através dessa música são esses temas densos e esse fluxo de consciência que transcende barreiras.

Temos — ou tivemos — fãs na Síria, no Iraque, em Israel… fãs espalhados pelo mundo inteiro. Então acredito que essa música ultrapassa fronteiras porque, no fim das contas, somos todos seres humanos. Pensamos, sentimos, acreditamos ter alma — e nos conectamos através da música.


In Somnolent Ruin foi descrito como um dos álbuns mais pessoais da carreira da banda. Em que momento você percebeu que ele iria além de apenas mais um capítulo e se tornaria algo mais íntimo?

Acho que isso começou a tomar forma durante o período da Covid. As turnês do álbum anterior [Under a Godless Veil (2020)] foram sendo constantemente adiadas, e toda aquela sensação causada pela pandemia fez com que eu sentisse que o próximo disco precisava ser uma espécie de culminação de tudo aquilo que estávamos vivendo — ou, pelo menos, de tudo aquilo que eu estava sentindo.

Mas só no começo do ano passado eu realmente reuni e organizei as ideias sobre o tipo de letra que queria escrever para essas músicas. E foi apenas no ano passado que eu e o Johan [Ericson, guitarrista] sentamos para decidir quais composições entrariam no álbum. Tínhamos cerca de vinte músicas para escolher.

Então pensamos: “Ok, queremos que este disco siga determinada direção”. Escolhemos as faixas que pareciam mais conectadas entre si em termos temáticos e conceituais. Depois disso, comecei a selecionar e adaptar as letras de acordo com esse conceito. Foi um processo de mudança constante. Eu seguia editando, reescrevendo e ajustando tudo enquanto gravávamos o álbum — mesmo que o processo criativo tivesse começado anos antes. Então, de certa forma, a criação continuou acontecendo até os últimos instantes.


O conceito ligado à teoria da alma de Platão não foi planejado desde o início. O que isso revela sobre a maneira como você organiza — ou não organiza — suas ideias criativas?

Na verdade, houve um pequeno mal-entendido na forma como isso foi apresentado no press release. O álbum não é especificamente sobre uma ideia filosófica ou sobre Platão. Eu nunca pensei diretamente em Platão enquanto escrevia. Isso surgiu quando conversamos com a gravadora durante a coletiva de imprensa, e eles acabaram vendendo o disco dessa forma.

Mas o álbum não é sobre isso especificamente. Ele trata mais dessa ideia de quem somos neste mundo — da sensação de sermos estrangeiros aqui, de que talvez este não seja o nosso verdadeiro mundo. Esse sentimento de alienação sempre esteve presente no Draconian.

Só que, nos últimos dez ou doze anos, comecei a revestir essas ideias com uma abordagem mais filosófica e mitológica. Passei a usar certos conceitos, símbolos e referências para representar essas sensações. Uso elementos do gnosticismo e do platonismo, por exemplo. Mas, se você remover esses nomes e termos, perceberá que sempre falamos sobre as mesmas questões.

A diferença é que hoje isso aparece de forma mais poética e sofisticada, porque eu amadureci, li mais, adquiri mais conhecimento. Não queria ficar me repetindo. Queria tornar tudo mais profundo e impactante.


Você enxerga esses temas como reflexos de um momento coletivo mais amplo ou de um processo mais pessoal?

Acho que é as duas coisas. Depende muito da forma como você enxerga a vida e os outros seres humanos. Às vezes posso ser bastante misantrópico em relação à humanidade, mas também sinto que existe uma conexão muito forte entre as pessoas, porque muitos de nós compartilhamos o mesmo sofrimento, os mesmos sonhos e uma sensação semelhante de alienação.

Percebo isso quando viajo pelo mundo com a banda, quando converso com fãs, quando dou entrevistas como esta ou leio resenhas. Existe uma identificação muito grande em certos aspectos que compartilhamos. Talvez não falemos sobre isso no cotidiano, mas são pensamentos que muitos carregam dentro de si.

Acho que existe verdade nisso tudo. Claro, não posso afirmar que todos compartilham dessas questões. Talvez muita gente simplesmente funcione no automático — basta olhar para o mundo. (risos) Mas acredito que a escuridão do mundo atual seja consequência desse “estado de ruína sonolenta”, por assim dizer. Ainda não despertamos para o nosso verdadeiro potencial. Estamos muito mais focados nas nossas diferenças do que naquilo que nos une.



Ao compor o novo material, você sentiu necessidade de responder a Under a Godless Veil ou de se afastar dele?

Não, eu não estava tentando me afastar dele. Li algumas resenhas dizendo que abandonei o gnosticismo depois da saída da Heike [Langhans, vocalista] da banda, mas isso não é verdade. Esses elementos ainda estão presentes. A diferença é que este álbum é mais pessoal, no sentido de que estou falando sobre diferentes temas de uma forma mais filosófica.

Também escrevi as letras de maneira mais poética. Algumas são mais diretas, como “Lethe”, por exemplo, em que eu realmente queria apresentar a ideia da “matrix da desencarnação” e mostrar que existe toda uma antiga tradição filosófica e espiritual tentando explicar esse tipo de conceito.

Então eu não sentia nenhuma obrigação de continuar exatamente de onde o álbum anterior parou. Mas aprendi muitas coisas desde então, e elas inevitavelmente continuam me influenciando. O gnosticismo teve um papel enorme no disco anterior, e agora não consigo mais “desver” essa luz. Isso passou a fazer parte de quem eu sou. Sempre vou carregar essa influência de alguma forma, porque ela faz parte da minha vida hoje. Mas isso não significa que eu precise escrever sempre especificamente sobre o tema. É mais uma maneira de enxergar o mundo e a própria existência.


O que o retorno da vocalista Lisa Johansson realmente mudou na dinâmica criativa da banda?

Quando a Lisa voltou, nós já havíamos começado a escrever as músicas. O ano de 2022 foi muito transformador para a banda, porque passamos a tentar entender o que o Draconian realmente seria dali para frente.

Depois de muito debate, muitas conversas e vários impasses sobre o que a banda queria em contraste com o que a Heike queria, ela decidiu sair. A Lisa retornou inicialmente apenas como integrante de apoio para os shows, mas acabou parecendo algo muito natural que ela voltasse de forma definitiva.

Queríamos voltar a funcionar como uma banda de verdade, focando uns nos outros como membros permanentes, sem depender tanto de músicos contratados. Tivemos muitos integrantes de apoio ao longo dos últimos quinze anos. Hoje, sinceramente, sinto que esta é a melhor formação que já tivemos — e não porque somos todos suecos, mas porque existe uma combinação entre algo familiar, ligado à presença da Lisa, e uma versão mais madura e atualizada da banda.

Também percebemos, através dos shows e turnês recentes, que estamos tocando melhor do que nunca. Não sei se isso tem relação direta com as mudanças de integrantes, mas sinto que finalmente encontramos a formação certa. Quando o mundo começou a reabrir após a pandemia, a banda estava pronta para retomar tudo e finalmente promover o álbum anterior da maneira adequada.

E funcionou muito bem, porque a Lisa realmente queria voltar a fazer parte do Draconian. Isso era algo que nem imaginávamos quando a convidamos apenas para atuar como musicista de apoio. No fim, acho que a própria Heike percebeu que seria muito difícil manter tudo funcionando ao mesmo tempo, especialmente se quiséssemos ensaiar, excursionar e manter a banda ativa enquanto ela tinha outros planos, outras bandas e desejava viver em outra parte do mundo.

No fim das contas, todos conseguiram o que queriam. E, para quem sente falta da Heike, eu entendo perfeitamente. Mas ela tem outras quatro bandas atualmente — e todas são ótimas. Então espero que os fãs também consigam encontrar coisas positivas nisso.


Existe uma ideia recorrente nas suas respostas de que o álbum “emergiu” quase involuntariamente, como um processo orgânico. Até que ponto você sente controle sobre a obra — e até que ponto ela se impõe sobre você?

Essa é uma pergunta muito boa. Acho que, no começo, você sempre tem uma ideia do álbum que gostaria de fazer. Talvez três ou quatro anos antes você já imagine certa direção. Mas o processo do Draconian é muito lento — quase “doom” até nisso. (risos)

Você começa pensando em um tipo específico de álbum, mas, conforme o processo avança, as músicas vão se transformando. Em certo ponto, parece que aquilo ganha vida própria, como se você não tivesse tanto controle assim sobre o resultado. O disco acaba se tornando algo diferente daquilo que você imaginou inicialmente.

Acho que essa é simplesmente a natureza do processo criativo dentro de uma banda. Só muito perto do final decidimos exatamente qual seria o foco do álbum.

Então acredito que exista um equilíbrio: ao mesmo tempo em que estamos abertos para que o universo molde nossas criações, também temos a capacidade de esculpir e direcionar aquilo que está surgindo. Mas, no fim, tudo parece muito ligado a esse fluxo de consciência.


Em uma era marcada pelo consumo rápido, como você enxerga a recepção de músicas longas, densas e emocionalmente exigentes?

Bom, eu me permito ler resenhas e comentários de vez em quando, e a recepção costuma ser muito boa. Nossos fãs são pessoas extremamente humildes e incríveis. Mesmo quando não gostam de alguma coisa, normalmente conseguem expressar isso de maneira respeitosa.

Acho que, neste ponto, o Draconian já possui uma base muito sólida. Somos praticamente uma banda veterana agora. Mantivemos essa identidade de gothic doom por tanto tempo que nunca realmente nos afastamos dela — mesmo que nossas influências acabem tornando algumas músicas mais versáteis de vez em quando, como dá para perceber nesses três singles recentes [“Cold Heavens”, “Misanthrope River” e “Anima”].

Mas o núcleo continua sendo o mesmo — e sempre será. Então acredito que os fãs já tenham uma certa expectativa em relação ao que fazemos. E sinto que conseguimos corresponder a essa expectativa, ao mesmo tempo em que ainda conseguimos surpreendê-los de maneira positiva.

Também ajuda o fato de existir bastante tempo entre os álbuns. Os fãs acabam realmente mergulhando nesse universo musical. Claro que, para pessoas “normais”, isso tudo pode soar extremamente denso e pesado emocionalmente. Nós não somos funeral doom, por exemplo — e honestamente isso já seria pesado demais até para mim. (risos)

Mas o núcleo do Draconian continuará sendo doom e gothic metal, com alguns elementos progressivos aqui e ali. Acho que é isso que as pessoas podem esperar da banda. E claro: cada fã sempre terá seus discos favoritos. Alguns vão preferir este álbum, outros gostarão mais dos anteriores. Mas existe uma coisa em que eles sempre poderão confiar: o coração da nossa música continuará sendo gothic doom metal — ou dark metal.


O que ainda te impulsiona a criar: a necessidade de dizer algo novo ou a impossibilidade de parar?

Acho que, neste ponto, criar música já está completamente enraizado em quem somos. Mesmo que eu deixasse o Draconian amanhã, continuaria escrevendo. Mesmo que nunca mais tivesse outra banda, eu ainda escreveria. E tenho certeza de que o Johan também continuaria fazendo música se o Draconian acabasse amanhã.

Isso simplesmente faz parte de nós. Acho que já não temos escolha. Somos artistas, exista ou não um espaço para expressar isso.

Talvez seja por isso que tantas bandas grandes, quando encerram as atividades, acabam migrando para outros projetos e outras formas de arte: elas precisam continuar alimentando a criatividade. E com razão.

Nós simplesmente não conseguimos parar. Isso é uma forma de expressão. E, sinceramente, sem isso eu provavelmente seria ainda mais miserável do que já sou. (risos)



Serviço — Draconian + Emma Ruth Rundle em São Paulo

Data: 16 de maio de 2026 (sábado)

Horário: 16h30 (abertura da casa)

Local: Carioca Club (rua Cardeal Arcoverde, 2899 – Pinheiros, São Paulo/SP)

Venda on-line: fastix.com.br/events/draconian-emma-ruth-rundle-em-sao-paulo


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