ENTREVISTA: Kevin Steele fala sobre liberdade criativa, passado no Roxx Gang e o disco que sempre quis fazer
Desde que se entende por gente, Kevin Steele quis estar em uma banda. Ao longo da carreira, brilhou especialmente em duas: primeiro no Roxx Gang — grupo que, como se costuma dizer, chegou tarde à festa do glam metal oitentista — e, depois, no Mojo Gurus, que remou contra a maré do rádio e da MTV dos anos 1990 ao apostar em um som de raiz, mergulhado no blues. Quiseram o destino e o talentoso guitarrista e produtor Billy Summer que Kevin abandonasse um retiro autoimposto, onde compunha apenas por exercício, para finalmente registrar o recém-lançado One Thing Left To Do. O vocalista define o projeto como “o disco que sempre quis fazer”. Entenda o porquê na entrevista a seguir. Boa leitura!
Por Marcelo Vieira
Foto: Linda Militello
Você descreve One Thing Left To Do como “o disco que sempre quis fazer”. O que, exatamente, não era possível alcançar dentro de uma banda e agora se tornou viável?
Bem, por ser meu primeiro álbum solo, não precisei fazer concessões a outros integrantes. Tudo veio diretamente de mim. Eu e o guitarrista Billy Summer assinamos a coprodução, então não houve aquele choque de ideias com um produtor que pensasse diferente. No passado, tive a sorte de trabalhar com ótimos produtores — gente como Jack Douglas, que produziu Aerosmith, New York Dolls e Cheap Trick. Ele inclusive estava trabalhando com John Lennon [no álbum Double Fantasy (1980)] quando ele foi assassinado. Então, quando alguém desse nível sugere algo para a sua música — e você não gosta —, você fica numa posição delicada. Quem sou eu para dizer “não” ao Jack Douglas?
Desta vez, nada disso aconteceu. Gravamos no estúdio do Billy, o que também fez toda a diferença. No passado, você ficava olhando para o relógio, pensando no custo de cada minuto de estúdio. Aqui não houve essa pressão. Não houve concessões. Foi a maior liberdade que já tive ao fazer um disco.
O título do álbum sugere uma espécie de declaração final — ou talvez um último movimento. Para você, One Thing Left To Do representa um encerramento?
Na verdade, eu nem planejava fazer esse disco. Se você tivesse falado comigo um ano atrás, eu provavelmente diria que estava fora disso tudo. Mas então conheci o Billy — ele é uns dez anos mais novo que eu — e me contou que, quando estava aprendendo a tocar guitarra, praticamente gastou uma fita do Roxx Gang de tanto estudar os licks. Acho que ele quis retribuir isso de alguma forma.
Ele descobriu que eu tinha várias músicas escritas que não tocava há tempos. Nunca parei de compor — é mais barato que terapia. Fui até o estúdio com duas ou três ideias, logo viraram cinco, depois dez… e, quando vimos, havia um álbum pronto.
Então, não sei. Esse trabalho reacendeu algo em mim. Talvez fosse para ser o último disco — o título tem um pouco dessa ideia —, mas desde que o lançamos já escrevi mais umas cinco músicas. Hoje em dia, você pode lançar singles digitalmente, então não sei se haverá outro álbum, mas com certeza ainda tem mais música vindo por aí.
A ideia de “não responder a ninguém” pode ser libertadora, mas também traz outro tipo de responsabilidade. Como você equilibrou essa liberdade total com a autocrítica durante o processo criativo?
Sinceramente, eu nem penso mais nisso. Cheguei a um ponto da vida em que não sinto que preciso provar nada para ninguém. Sou um compositor bastante egoísta nesse sentido: escrevo para me agradar. Claro que espero que outras pessoas gostem, mas a prioridade sou eu.
Então fiz exatamente o que quis neste álbum. Não me preocupei em equilibrar nada — apenas segui o instinto. No fim das contas, é disso que o rock and roll sempre tratou.
Houve algum momento específico no álbum em que você sentiu que finalmente estava capturando algo que buscava há décadas, mas nunca havia conseguido traduzir completamente?
Acho que desde o começo. A primeira música que gravamos foi “Snake Charmer”, que acabou sendo o primeiro single. Ali já sentimos que havia algo especial acontecendo. Eu e o Billy nos conectamos de forma muito natural.
O crédito de produção aparece como “The Cosmic Twins” [“Os Gêmeos Cósmicos”], porque parecia que éramos gêmeos musicais — como aqueles que terminam a frase um do outro. A gente fazia isso com ideias musicais: ele já sabia para onde eu estava indo antes mesmo de eu concluir.
Todo o projeto fluiu de forma muito orgânica, rápida, sem esforço. Nunca me diverti tanto fazendo um disco na vida.
“Snake Charmer” explora uma tensão clássica entre desejo e obsessão. O que te atrai nessa dinâmica — é algo pessoal, social ou mais arquetípico?
Essa é uma história tão antiga quanto o pecado original. A música fala sobre uma mulher que representa a tentação, e um homem que se torna obcecado por ela. É uma dinâmica bastante comum — algo que atravessa o rock and roll desde o início.
Do ponto de vista técnico, como nasce uma música para você hoje: a partir da letra, de um riff, de uma progressão harmônica ou de uma atmosfera específica?
Geralmente começa com a letra. Normalmente penso primeiro no título e começo a desenvolver a partir daí. A melodia surge junto com as palavras — enquanto escrevo, já imagino como vou cantar aquilo.
Depois levo a ideia para um guitarrista. Tive sorte ao longo da carreira de trabalhar sempre com ótimos músicos, porque eu mesmo não toco guitarra. No começo, eu só escrevia letras e entregava para alguém musicar. Com o tempo, percebi que podia simplesmente cantar minhas ideias.
Hoje, eu literalmente canto o ritmo, a dinâmica, como quero que a música soe — e o guitarrista capta na hora. Funciona surpreendentemente bem.
“There’s A Better Day Comin’” traz uma construção de esperança quase gospel. Essa mudança de tom dentro do álbum, sobretudo em relação a “Snake Charmer”, foi pensada como um contraste deliberado?
Sim. Algumas pessoas até interpretam a música como algo religioso, como se eu estivesse falando do além, de uma vida após a morte — mas não é isso. Eu não sou uma pessoa particularmente religiosa. O que acontece é que o mundo anda tão caótico que, só para sair da cama de manhã e encarar essa realidade, você precisa ter alguma esperança para seguir em frente.
É disso que a música trata. Eu queria encerrar o disco com uma nota positiva.
Em “Sad, Sad Song”, você revisita momentos difíceis da sua juventude. O que muda quando a memória é transformada em narrativa musical?
Depende muito do tema. Pode ser doloroso, pode ser alegre. No geral, eu evito deixar minhas músicas pesadas demais. De vez em quando, eu me permito abrir mais — como em “Sad, Sad Song”, onde exponho um pouco mais da minha essência.
Mas, para mim, o rock and roll é algo tribal, é celebração. Uma boa banda de rock precisa ser divertida, ter um certo senso de perigo — e até um pouco de humor. Eu nunca fui do tipo que quer deprimir as pessoas com a própria música. Pelo contrário: quero elevar, fazer bem, proporcionar uma fuga das dificuldades da vida.
Quando eu era criança, tive uma infância difícil. Minha mãe foi assassinada quando eu tinha oito anos. Pode soar clichê, mas a música foi realmente a minha salvação. E uma grande motivação ao longo da minha carreira sempre foi tentar oferecer aos outros esse mesmo tipo de escape que a música me proporcionou.
Existe uma linha tênue entre honestidade emocional e exposição excessiva. Como você decide até onde ir?
Quando eu estava trabalhando em “Sad, Sad Song”, houve um momento em que a coisa ficou realmente emocional — mas curiosamente isso aconteceu mais na hora de cantar do que na hora de escrever. Foi ali que a ficha caiu.
Eu me perguntei: “Será que devo me expor assim?”. E a resposta foi sim. Acho que esse tipo de honestidade pode ajudar alguém a se identificar, a perceber que não está sozinho. Talvez alguém escute e pense: “Ele passou por isso e conseguiu superar”.
Sinceramente, não acho que exista “exposição excessiva” quando se trata de composição. Seja honesto — as pessoas percebem e valorizam isso.
Como você sabe que uma música está pronta?
Não estou brincando: minhas melhores músicas são as que escrevo mais rápido. Aquelas que vêm de uma vez, do início ao fim, praticamente sem precisar de ajustes. Essas costumam ser as melhores.
Já as músicas em que fico revisando demais — “não gostei dessa frase”, “esse verso não está bom” — acabam se tornando cansativas. Você começa a perder o entusiasmo.
Acho que as histórias já estão ali, no subconsciente. Quando elas simplesmente fluem, essas são as mais fortes. Às vezes, eu termino uma música e penso: “Uau, isso saiu rápido — e está ótimo”. E não mexo mais.
Claro, há casos em que volto depois, ajusto uma frase aqui, uma rima ali. E também existem músicas que ficam “na gaveta” por um tempo, até eu conseguir enxergar melhor o que falta. Mas, no fim, é algo muito instintivo. Você simplesmente sabe quando está pronta — ou não.
O Roxx Gang surgiu em um momento em que o glam metal dominava tanto a estética quanto o mercado. Em retrospecto, você vê aquela fase mais como expressão autêntica ou como adaptação ao contexto da indústria?
É difícil dizer. Isso já faz muito tempo — eu era praticamente um garoto quando começamos o Roxx Gang. Sempre senti que a banda sofreu com o timing.
A gente já estava na estrada há anos antes de conseguir um contrato. Viemos da Flórida, e nos Estados Unidos a indústria musical está concentrada em lugares como Los Angeles — e, em menor escala, Nova York. Na Flórida, praticamente não acontecia nada. Então demorou mais para sermos descobertos.
Lembro que estávamos gravando Things You’ve Never Done Before (1988), nosso primeiro álbum, e eu estava no estúdio assistindo à MTV quando passou o primeiro clipe do Nirvana. Naquele momento, eu ainda não sabia, mas a cena musical estava prestes a mudar da noite para o dia.
De repente, todas as bandas com as quais éramos associados — glam metal, hair metal, como quiser chamar — deixaram de ser tocadas. Os programadores passaram a apostar em Soundgarden, Pearl Jam e o próprio Nirvana. Foi como se puxassem o tapete da gente antes mesmo de termos a chance de decolar.
Ainda assim, vendemos cerca de 250 mil cópias. Mas, se tivéssemos assinado um ou dois anos antes — e estávamos prontos —, acho que poderíamos ter alcançado um disco de platina. Mas fazer o quê? São aquelas injustiças da vida.
Existe uma romantização constante do passado do rock. Na sua experiência, o que era mais mito do que realidade naquela época?
Acho que uma das coisas que diferenciava o Roxx Gang de muitas bandas daquela época — não todas, mas muitas — é que éramos uma banda de verdade. A gente vivia aquilo que tocava. Não era algo fabricado.
O problema da indústria musical americana é que, quando uma banda estoura — como o Guns N’ Roses, por exemplo —, as gravadoras começam a procurar “o próximo Guns N’ Roses”. Nos anos 1980, quando bandas como Poison fizeram sucesso, todo mundo passou a buscar grupos com maquiagem, cabelo armado… e tudo virou uma fórmula.
As bandas começaram a soar e parecer iguais. Virou quase uma caricatura — e não é surpresa que o público mais jovem tenha buscado algo novo no grunge. Muitas dessas bandas pareciam ridículas. Para sustentar aquele visual glam, você precisava ter atitude — e nem todo mundo tinha. Algumas até usavam peruca, mas não vou citar nomes.
Nós éramos diferentes. O Roxx Gang tinha uma pegada mais crua, mais sombria. Não cantávamos sobre coisas como “Cherry Pie” ou “Unskinny Bop”. Nossas músicas tinham frases como “Live fast, die young” (“Viva intensamente, morra cedo”) e “Put a red rose on my grave” (“Coloque uma rosa vermelha em meu túmulo”). Era um universo mais pesado, mais obscuro.
Em que momento o “sonho do rock” revelou também seu lado de trabalho, com dificuldades e responsabilidades?
Desde muito cedo eu já sabia que queria isso. Eu devia ter uns seis anos quando assistia a The Monkees — estou entregando minha idade aqui — e lembro de um episódio em que eles estavam em Paris, com várias garotas correndo atrás do Davy Jones ao redor da Torre Eiffel. Quando elas o alcançam, rasgam a camisa dele… e eu pensei: “é isso que eu quero fazer”.
Na adolescência, eu morava em Venice, na Flórida — um lugar pequeno, onde não acontecia nada. Entrar para uma banda de rock era só um sonho. Eu vivia com meus avós, e meu avô, um italiano durão, sempre perguntava: “O que você vai fazer da vida, Kevin?”. E eu respondia: “Vou ter uma banda de rock, vou ser um rockstar”. E ele retrucava: “Mas você nem tem uma banda”.
Quando me formei no ensino médio, meus avós queriam muito que eu fosse para a faculdade — disseram que pagariam tudo. Havia uma tradição na família: meu pai era advogado, o pai dele também. Mas eu não queria voltar a estudar. Eu era um jovem completamente envolvido com o rock.
Então tive uma espécie de epifania: pensei que, se me mudasse para uma cidade universitária, encontraria músicos com mais facilidade. Disse aos meus avós que iria para a faculdade — eles ficaram felizes —, mas eu tinha um motivo oculto. E funcionou. Acabei entrando em uma banda que, mais tarde, evoluiu para o Roxx Gang.
Até que ponto as experiências na indústria fonográfica, com grandes gravadoras etc. moldaram sua postura atual como artista independente, no controle da própria narrativa?
Eu nunca fui muito bom em receber ordens ou seguir regras — então imaginei que o rock and roll seria uma boa carreira para mim justamente por isso.
Seria mentira dizer que tudo sempre foi por um ideal mais elevado. Claro, eu gosto da ideia de que minha música possa ajudar alguém em momentos difíceis, levantar o astral… mas também entrei no rock por motivos bem mais simples: garotas. Quando você é jovem e vocalista de uma banda, isso também conta — e bastante.
Mas, no fim das contas… eu até esqueci a pergunta (risos). Acho que isso resume bem: eu sigo fazendo do meu jeito.
A mudança para um som mais voltado ao blues com o The Mojo Gurus foi mais um gesto de libertação artística ou uma necessidade de adaptação?
Teve um pouco das duas coisas. O grunge tomou conta, e bandas como o Roxx Gang perderam espaço. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre tive influências que iam além do glam.
Sempre gostei de bandas britânicas como T. Rex e Mott the Hoople, além de David Bowie. Nos Estados Unidos, curtia New York Dolls, Lou Reed e Iggy Pop. Mas eu sabia que o glam rock tem um prazo de validade — ninguém quer ver um glam rocker aos 40 anos tentando manter aquele visual. Fica estranho.
Olho para alguns contemporâneos meus, hoje com 60 anos, ainda usando calça colada, maquiagem… e, sinceramente, não funciona. Eu precisava encontrar uma forma de envelhecer com dignidade dentro do rock.
O David Bowie não ficou preso ao Ziggy Stardust para sempre — e isso sempre foi uma referência para mim. Sabia que, se quisesse continuar, teria que evoluir. Meu gosto musical amadureceu, minhas composições também.
Quando eu tinha vinte e poucos anos, escrevia basicamente sobre sexo, drogas e rock and roll. Com o tempo, comecei a ter pensamentos mais profundos. E foi aí que o blues entrou com força.
Bandas que eu ouvia quando jovem — como Rolling Stones, Led Zeppelin e Allman Brothers Band — já tinham essa base blues. Quando descobri artistas como Muddy Waters e Howlin’ Wolf, fui direto às raízes — e me apaixonei.
Então, para mim, foi uma evolução natural: um som mais maduro, mais bluesy, mas ainda rock and roll.
Ao olhar para sua trajetória — do Roxx Gang à carreira solo — você se vê como alguém ainda em busca de uma forma definitiva de expressão?
Não sei dizer. Só sei que vou continuar fazendo as coisas do meu jeito.
O que é louco hoje em dia é essa história de inteligência artificial. Tem gente compondo música com IA… é tudo muito estranho, muito artificial. Eu sou mais old school — ainda escrevo minhas músicas com caneta e papel.
Sempre disse que continuaria enquanto estivesse me divertindo. E continuo. Estou me divertindo, com certeza.
Se você pudesse encontrar o Kevin Steele de 1988 por cinco minutos, o que diria a ele?
Use camisinha, garoto. Use camisinha — e não compartilhe seringas (risos).
E o que evitaria dizer a qualquer custo?
Nada. Algumas coisas você só aprende vivendo, errando, quebrando a cara. Eu não diria nada ao Kevin mais jovem — deixaria ele descobrir por conta própria.
Saiba mais em https://www.facebook.com/KSteeleRoxxGang.



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