ENTREVISTA: Ignacio Rodríguez detalha as ambições do novo álbum do Azeroth

 


Há tempos o Azeroth deixou de ser apenas um dos principais nomes do power metal argentino para se tornar uma banda com forte identificação junto ao público brasileiro. Depois de abrir shows do Angra no Brasil, homenagear o Viper e estreitar laços com o país, o grupo reforça sua estratégia de expansão internacional com Trails of Destiny, versão em inglês de Senderos del Destino (2022). Nesta entrevista, o vocalista Ignacio Rodriguez fala sobre a adaptação das letras, a participação de Fabio Lione, a valorização das bandas sul-americanas, a influência do metal brasileiro e a expectativa para dividir o palco com o Helloween na Movistar Arena em Buenos Aires no dia 13 de setembro.


Por Marcelo Vieira

Foto: Nacho Lunadei


Trails of Destiny nasce de uma recriação de Senderos del Destino. O que motivou essa transposição de idioma?

Já havíamos feito isso com Beyond Chaos (2019), versão em inglês de Más Allá del Caos (2018). Enquanto trabalhávamos naquele álbum, surgiu a ideia de fazer o mesmo com outros discos. Pouco depois veio o convite do Angra para tocarmos em Buenos Aires e, em seguida, a oportunidade de excursionar pelo Brasil. Percebemos que, se queríamos alcançar mais pessoas e tocar em outros países, fazia sentido lançar versões em inglês das nossas músicas.


As letras precisaram ser completamente reescritas para funcionar no novo idioma?

Sim. Não existe uma tradução literal. Mantivemos a mesma mensagem, mas todas as letras foram reescritas do zero. É preciso respeitar ritmo, melodia, acentuação e a forma como as palavras soam quando são cantadas. Traduzir palavra por palavra simplesmente não funcionaria.


Você sentiu que alguma emoção ou nuance das versões originais acabou se perdendo nesse processo?

Não diria que se perdeu, mas certamente mudou um pouco. Cantar em inglês é diferente de cantar em espanhol, que é minha língua nativa. Mesmo assim, canto em inglês há cerca de quinze anos, então já estou bastante acostumado. Em algumas músicas, inclusive, gosto mais da sonoridade das melodias em inglês. Cada idioma tem uma forma diferente de soar e isso influencia a interpretação.


Essa preferência também tem relação com o fato de o power metal ser um gênero tradicionalmente associado ao inglês?

Com certeza. As maiores bandas e as principais referências do power metal cantam em inglês. Quando você começa a ouvir esse estilo, quase sempre é por meio de bandas que usam esse idioma. Na Argentina temos grupos importantes, como o Rata Blanca, que se aproximam do power metal, mas não representam exatamente esse estilo. Então crescemos ouvindo nossos ídolos cantando em inglês e isso acaba se tornando algo muito natural.


Como Senderos del Destino ainda é um álbum relativamente recente, houve a tentação de aproveitar essa nova versão para corrigir ou mudar algo que hoje vocês fariam diferente?

Senderos del Destino nos trouxe muitas conquistas. Foi com esse álbum que tivemos a oportunidade de tocar no Brasil pela primeira vez e agora também estamos levando esse trabalho para o Chile. Por isso, não fazia sentido mudar muita coisa nele. Claro que sempre existe algo que você faria de outra forma, mas preferimos deixar essa evolução para o próximo álbum. A banda cresceu muito depois das primeiras turnês internacionais, e toda essa experiência naturalmente está sendo incorporada às músicas novas que estamos compondo.


Costumo dizer que o público brasileiro só passa a valorizar uma banda nacional depois que ela recebe reconhecimento na Europa ou nos Estados Unidos, como se a aprovação estrangeira funcionasse como um selo de qualidade. Na Argentina acontece o mesmo?

Sim, acontece exatamente a mesma coisa. Existe muito essa ideia de dizer: “Essa banda soa como uma banda gringa”. E por que isso deveria ser um elogio? Nós somos uma banda argentina e queremos soar como uma banda argentina, fazendo um trabalho profissional. Acho que esse é um problema comum em toda a América do Sul. Se as bandas daqui tivessem os mesmos recursos financeiros das europeias, poderiam atingir exatamente o mesmo nível. Esse preconceito precisa acabar.


Na sua opinião, o que falta para mudar essa mentalidade?

Falta fortalecer a cena como um todo. Na Europa existe uma união muito maior entre bandas, gravadoras e mercado. Basta olhar para a Finlândia: Nightwish, Children of Bodom, Sentenced, Amorphis, Sonata Arctica e Stratovarius cresceram praticamente ao mesmo tempo porque havia uma estrutura que apoiava várias bandas simultaneamente. Quando existe espaço para muitos artistas, toda a cena se fortalece. Também precisamos que o público dê uma chance às bandas locais que abrem shows internacionais. Há muita gente fazendo um excelente trabalho.


Curiosamente, você citou apenas bandas que cantam em inglês. No fim das contas, essa questão passa mais pelo idioma do que pela geografia?

Pode ser. Na Argentina existe uma barreira muito forte com o inglês por razões históricas, principalmente por causa da Guerra das Malvinas. Quando começamos, muita gente perguntava por que cantávamos em inglês em vez de espanhol. Existe um componente cultural muito forte nisso. Não sei se no Brasil acontece da mesma forma, mas aqui esse debate sempre esteve presente.



O power metal costuma ser associado ao virtuosismo. Como vocês evitam que a técnica acabe se sobrepondo à emoção das músicas?

Essa é uma ótima pergunta. Muita gente pensa que power metal é apenas tocar muito rápido ou mostrar técnica, mas acreditamos que a música precisa ir além disso. O Azeroth nasceu da paixão pelo heavy e pelo speed metal. Somos muito influenciados pelo Sepultura da fase inicial e por bandas como Blind Guardian, que conseguem unir agressividade e melodias marcantes. Na nossa música, a melodia sempre vem em primeiro lugar. Todos os arranjos são construídos ao redor dela, e isso impede que a técnica se torne um fim em si mesma.


Falando novamente sobre essa “validação estrangeira”, o álbum conta com a participação de Fabio Lione. O que a presença dele acrescentou artisticamente ao trabalho?

Antes de tudo, foi uma grande oportunidade. Conhecemos o Fabio quando ele esteve na Argentina com o Rhapsody e o Angra. Conversamos rapidamente, ele ouviu a banda, gostou e disse que poderíamos falar melhor depois. Como já planejávamos gravar um álbum em inglês e convidar um músico reconhecido internacionalmente, o nome dele acabou surgindo naturalmente. Além da participação artística, foi uma experiência muito enriquecedora acompanhar a forma como ele trabalha. Também nos mostrou que a banda tem condições de atuar em um nível internacional.


Você sentiu uma pressão maior por ter um músico com reconhecimento mundial trabalhando diretamente com vocês?

Na verdade, não. Tudo aconteceu de forma muito natural. Hoje a banda vive um momento em que muitas coisas importantes estão acontecendo, inclusive ao lado de grandes nomes do power metal. O Fabio é um artista de repercussão mundial e faz um trabalho incrível, mas, no fim das contas, também é um músico como nós. Trabalhamos juntos de igual para igual. Além disso, ele é uma pessoa extremamente humilde e agradável, o que tornou toda a experiência muito tranquila.


Outro aspecto que chama atenção no álbum é o cover do Viper, que aproxima ainda mais a banda do Brasil. O que o Viper — e, de forma mais ampla, o metal brasileiro — representa na sua formação como músico?

O Azeroth foi fundado pelo nosso baixista, Fernando Ricciardulli, e tudo começou porque ele ouviu Soldiers of Sunrise (1987) aqui na Argentina. Acho que foi no início dos anos 1990, quando o disco chegou por aqui. Aquilo marcou profundamente a vida dele. Em 2018 decidimos prestar uma homenagem ao Viper e, depois da morte do Andre Matos, essa ideia ganhou ainda mais significado. Lançamos um EP [Left Behind (2024)] antes da nossa primeira turnê pelo Brasil e incluímos esse cover [“Prelude to Oblivion”] justamente como forma de celebrar esse legado.


O que o público brasileiro tem de diferente em termos de energia e receptividade?

O que mais nos impressionou foi a recepção desde o primeiro show da banda fora da Argentina, em Curitiba [no dia 20 de dezembro de 2024]. Não sabíamos o que esperar, mas bastou começarmos a tocar para o público cantar, participar e responder de uma forma incrível. Aqui na Argentina isso normalmente só acontece quando a banda é estrangeira. No Brasil foi diferente. Terminamos a primeira música e a reação foi tão intensa que demoramos para conseguir começar a segunda. Foi uma sensação indescritível, de conquista, gratidão e realização. Já faz tempo, mas eu me lembro daquele momento como se tivesse acontecido ontem.


Dividir o palco com o Helloween na Movistar Arena, justamente uma das bandas que ajudou a definir o power metal, tem um peso simbólico enorme. Como foi receber esse convite?

Sem dúvida. Já havíamos trabalhado com a mesma produtora em shows de bandas como Stratovarius e Powerwolf, então eles comentaram que existia a possibilidade de tocarmos com o Helloween no ano seguinte. Ficou apenas como uma possibilidade. Quando recebi a confirmação, eu estava na casa dos meus pais. Logo depois vi o cartaz oficial no Instagram com o nome da nossa banda. Foi uma emoção enorme. Passa um filme pela cabeça, porque você lembra de todas as dificuldades enfrentadas desde o começo. Compartilhar o palco com uma das bandas que criou o estilo que tocamos, em um lugar como a Movistar Arena, não tem preço. Existe, claro, uma responsabilidade maior, mas acima de tudo é um momento de celebração.


São experiências como essa que ajudam a manter a criatividade e a motivação da banda, mesmo depois de mudanças de formação e tantos desafios?

Com certeza. Desde que começamos a tocar fora da Argentina, especialmente no Brasil, tudo entrou em uma fase muito positiva. Agora também vamos ao Chile e estamos conversando com produtores e músicos de vários lugares. Todas essas experiências fazem a banda crescer e influenciam diretamente as novas músicas e até a nossa identidade visual. Temos muitas novidades previstas para 2026 e acredito que o ponto alto desse momento será justamente o show com o Helloween na Movistar Arena. Estamos vivendo uma fase muito especial.


Acompanhe a banda no Instagram: @azerothmetal


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