Dino Jelusick vive um dos momentos mais movimentados de sua carreira. Depois de ganhar projeção internacional à frente do Animal Drive e integrar o universo do Whitesnake, o vocalista, compositor e multi-instrumentista croata vem consolidando sua própria identidade com o Jelusick. A banda tem ampliado seu alcance internacional, enquanto o músico se prepara para novos desafios — entre eles, uma participação no show de Edu Falaschi no Brasil, no próximo dia 15 (ingressos aqui), e apresentações ao lado do Judas Priest. Ao mesmo tempo, Jelusick não demonstra interesse em se acomodar nos rótulos que lhe foram atribuídos ao longo da carreira.
Em conversa com este jornalista, Dino fala sobre sua relação com o público brasileiro, relembra a passagem pelo país e a experiência com o Whitesnake, comenta o ainda inédito segundo álbum do Animal Drive e aborda os conflitos judiciais com a Frontiers Records. Com a mesma franqueza, discute a pressão para repetir fórmulas de sucesso, defende sua versatilidade artística e revela planos para explorar territórios ainda distantes do hard rock e do metal. Aos 34 anos, Jelusick parece ter uma certeza cada vez maior sobre o que quer fazer — e, principalmente, sobre o que não pretende se tornar.
Por Marcelo Vieira
Fotos: Alen Vouk
Você está de volta ao Brasil para participar do show de Edu Falaschi. O que significa dividir o palco com um artista cuja carreira foi fundamental para levar o metal melódico brasileiro ao mundo?
Significa muito, muito mesmo. Ele me chamou, acho que cerca de um mês atrás, mas eu não imaginava que seria possível. No último minuto, perguntei: “Você já enviou isso para o meu empresário?”. Ele ainda não tinha enviado, então falei: “Mande para ele e vamos ver se conseguimos fazer acontecer”. E, no fim, foi confirmado. Fiquei muito feliz. Eu o vi ao vivo no Summer Breeze, em 2024, mas nunca tínhamos nos encontrado pessoalmente. Acabamos nos conectando pelo Instagram, e agora vai ser muito divertido finalmente dividir o palco.
Você já sabe o que vai cantar no show?
Sei, sim. Mas vou deixar como surpresa para vocês [risos].
Você não pode dar ao menos uma pista?
Será algo do Angra. É a segunda vez que vou cantar uma música da banda. No ano passado, cantei “Nothing to Say” com o Kiko [Loureiro], na minha cidade natal. Agora será outra música.
Você vê essa participação como uma oportunidade de estreitar ainda mais os laços com o público brasileiro e se tornar um nome ainda mais conhecido por aqui?
Com certeza. Eu adoraria que isso acontecesse. Tanto o Jelusick como banda quanto eu, como artista, temos no Brasil um dos nossos maiores mercados. Se eu não considerar a Indonésia, que é um mercado muito interessante e particular, Brasil e Estados Unidos são nossos dois maiores mercados fora da Croácia. Então, sem dúvida, mal posso esperar para voltar ao Brasil.
A apresentação do Jelusick no Summer Breeze Brasil 2024 foi considerada por muitos fãs um dos destaques do festival. O que ficou daquela experiência depois que as luzes se apagaram?
O Summer Breeze foi incrível. Nós também deveríamos ter tocado no Bangers Open Air este ano, mas é uma longa história explicar por que isso não aconteceu. Estávamos confirmados, depois cancelamos porque esperamos, esperamos… Quando tentamos remarcar, já era tarde demais. Então, pelo que entendi, o Bangers vai acontecer para nós em 2028.
Existe alguma lembrança específica daquela passagem pelo Brasil — um encontro nos bastidores, uma reação do público ou um momento no palco — que permaneça especialmente viva na sua memória?
Eu gostei de praticamente tudo. A viagem inteira foi incrível. Começamos com o primeiro show em Curitiba (PR), que foi o menor deles, depois fomos para Porto Alegre (RS), onde tocamos no Bar Opinião, e, em seguida, para Nova Friburgo (RJ). Foram três shows consecutivos.
Depois, passamos alguns dias na serra, em Nova Friburgo, simplesmente relaxando, nos divertindo e aproveitando o lugar. Então fomos para São Paulo (SP), onde dei algumas entrevistas — inclusive participei do podcast Amplifica —, e no dia seguinte tocamos no Summer Breeze. Depois fizemos o show no Vivo Rio (RJ).
Em seguida, voamos para Buenos Aires (Argentina), fizemos um show lá e depois fomos para Assunção (Paraguai). De lá, voltamos para a Alemanha para tocar com o U.D.O. e o Phil Campbell, do Motörhead.
Foi uma viagem muito longa. Deixe-me pensar… Foram uns 17 dias, mais ou menos. Eu realmente gostei muito do Brasil. Estou voltando daqui a duas semanas e também vamos retornar no ano que vem. Estou muito ansioso por isso.
O segundo álbum do Animal Drive se tornou quase mítico entre os fãs. Em que estágio esse material realmente existe hoje?
Na verdade, o segundo disco do Animal Drive é o Follow the Blind Man (2023). Nós gravamos esse álbum como Animal Drive, mas ele nunca foi lançado. Depois, escrevi “Healer” e “Acid Rain” e substituí duas das músicas. Uma das faixas que retirei de Follow the Blind Man, originalmente gravada pelo Animal Drive, acabou no segundo álbum do Jelusick, Apolitical Ecstasy (2025). É uma música chamada “Groove Central”.
Então, talvez em 2029 a gente coloque no YouTube a versão do Animal Drive de Follow the Blind Man, para que as pessoas possam ouvir como ela soava. O material foi gravado em 2019, então seria interessante mostrá-lo dez anos depois.
O sucesso do primeiro álbum do Animal Drive, Bite! (2018), criou grandes expectativas. Esse impulso ajudou a banda a seguir em frente ou acabou tornando mais difícil dar o próximo passo?
Não, tornou tudo mais fácil. Com certeza. Lembro que, quando “Tower of Lies” foi lançada, as pessoas ficaram realmente surpresas e a repercussão foi muito boa. Nós queríamos simplesmente continuar naquele caminho.
Até hoje, toco algumas músicas do Animal Drive ao vivo. E certamente vamos regravar algumas delas como Jelusick assim que os direitos de edição expirarem e tudo passar a pertencer a mim novamente, o que deve acontecer em 2028.
Então, vocês podem esperar o relançamento de algumas músicas do Bite! com esta formação. Agora também estamos trabalhando novamente com o mesmo produtor que fez Bite! [Andreas Sala], então tudo isso vai fazer ainda mais sentido.
Sua entrada no universo do Whitesnake foi vista como um sinal de continuidade para uma banda histórica, mas o fim do grupo mudou completamente essa perspectiva. Como você lidou com essa expectativa que acabou não se concretizando?
Acho que foi uma questão de as coisas terminarem e outras portas se abrirem. No fim daquele ano, concluí meu processo contra a Frontiers Records. Criamos o Jelusick e eu nunca mais olhei para trás. Desde então, tenho simplesmente seguido em frente.
Também fiz o projeto Dirty Shirley [com o guitarrista George Lynch, ex-Dokken e Lynch Mob] e esperava que aquilo se transformasse em mais de um álbum, mas parece que ficará apenas em um. Foi uma ótima experiência e abriu muitas portas para mim.
É difícil acreditar que já se passaram cinco anos desde que “entrei” para o Whitesnake. O tempo passou muito rápido.
Tenho a impressão de que muitos artistas acabam entrando em disputas judiciais com a Frontiers. Existe algo relacionado à maneira como a gravadora trabalha — seja na forma de promover os artistas, seja nos contratos — que explique tantos conflitos?
Se eu responder, vou acabar tendo problemas! [risos] Não, estou brincando.
Sinceramente, hoje estou muito feliz vivendo minha vida longe de toda aquela história. Simplesmente não olho mais para trás. E, como você mesmo disse, muitas pessoas entraram em disputas judiciais com eles. Eu não fui o único.
Então, acho que, quando há fumaça… [risos] Talvez essa seja uma pergunta que você deveria fazer a eles. Eu realmente não sei. Para mim, essa história acabou. Estou em bons termos com eles, no sentido de que não tenho mais nada contra ninguém, mas não tenho mais nenhuma relação com a empresa.
Hoje faço minhas próprias coisas. Nós seguimos caminhos diferentes, e é isso.
Você chegou a imaginar, do ponto de vista artístico, no que aquela fase com o Whitesnake poderia se transformar?
Não. Eu sabia que estaria ali para ajudar o David [Coverdale, vocalista] e participar de uma turnê de despedida. Não imaginava que tudo terminaria tão cedo, mas nunca tive expectativas do tipo: “Isso vai se transformar em alguma coisa nova no futuro”.
Ele tinha 71 anos, se não me engano, quando tudo aconteceu. E, enfim, tudo precisa chegar ao fim em algum momento. Foi o que aconteceu com o Whitesnake.
Você transita entre hard rock, metal melódico, classic rock e até soul. Em um mercado que muitas vezes exige que os artistas se encaixem em rótulos bem definidos, essa versatilidade é uma vantagem ou um desafio constante?
Essa é uma ótima pergunta — ninguém nunca me perguntou isso. Obrigado! [risos] Tenho pensado muito nisso ultimamente, porque sou bastante versátil como compositor. Percebi, inclusive, que algumas resenhas deram notas mais baixas para o Apolitical Ecstasy justamente por considerarem que ele não é consistente, que há coisas demais acontecendo. E eu penso: se eu escrevesse tudo e tudo soasse igual, eu não seria feliz.
Para mim, a versatilidade é uma das melhores coisas que um artista pode ter. É por isso que gosto tanto do Toto, do Dream Theater e do Van Halen. Se você ouvir os primeiros discos do Van Halen, por exemplo, há muito mais rock and roll. Com o Sammy Hagar, a abordagem ficou mais voltada para as canções e menos para aquela necessidade de mostrar algo extraordinário o tempo todo. Também adoro o Prince. Gosto de artistas que se permitem ir além dos limites.
O problema é que, quando você tem um álbum de sucesso, as pessoas esperam que reproduza aquele mesmo álbum para sempre. Veja o Whitesnake: todo mundo ama 1987 (1987) e, depois dele, esperava que todos os discos fossem 1987. Riffs matadores, melodias fortes, estruturas muito bem definidas… Se você faz alguma coisa que não segue exatamente essa direção, as pessoas dizem: “Isso não é Whitesnake”.
E, para mim, Slip of the Tongue (1989) continua sendo meu álbum favorito do Whitesnake. Muita gente não gosta tanto daquele disco porque o Steve Vai trouxe elementos novos que não faziam parte daquele hard rock mais tradicional. Eu adorei justamente por isso.
Então, estou sempre disposto a experimentar coisas novas. O desafio é conseguir fazer tudo isso sem que o resultado pareça disperso. Talvez a chave esteja na produção: encontrar uma maneira de trabalhar diferentes estilos e, ao mesmo tempo, fazer com que tudo soe mais coeso.
Você trabalha conscientemente para preservar sua identidade sem se tornar prisioneiro das expectativas dos fãs?
Já fiz tantos discos que acho que demonstrei bastante do que sou capaz de fazer, mas ainda há muitas coisas que não mostrei. Tenho pensado, inclusive, que, depois do próximo álbum do Jelusick — que estou compondo neste momento —, talvez faça um disco de soul.
Neste momento, há muita movimentação em torno da banda. Vamos tocar em três arenas com o Judas Priest em três semanas e, depois que eu voltar do Brasil, estamos recebendo contatos de grandes festivais. Também vamos tocar no Japão e na Coreia do Sul no ano que vem, e os Estados Unidos estão começando a se abrir para nós. Então, vou me concentrar neste disco agora.
Mas, depois dele, penso em fazer algo completamente diferente. Não sei se consigo imaginar o Jelusick colocando essas músicas no setlist. Seria algo muito mais pessoal, comigo e um piano, talvez uma mistura de Toto, Sting e Porcupine Tree. Algo sem riffs e sem peso: uma espécie de pop rock progressivo mais suave, com elementos de soul e blues.
Quero experimentar tudo. Não quero ser prisioneiro do público. Sinto que, em determinado momento, estava começando a me tornar isso, porque lia comentários de pessoas que estão acostumadas a me ver como “o cara que precisa carregar a tocha do rock e do metal”, “o novo Dio”, “o novo Coverdale”, “uma mistura de Russell Allen com Jordan Rudess”…
Aí você faz alguma coisa fora desse universo e as pessoas dizem: “Dino, fique no rock and roll. Não entre nessa”. E eu penso: “Gente, não dá para ser assim!”. [risos]
Mas também há pessoas que apreciam quando você tenta algo diferente. No fim das contas, acho que você precisa seguir seus instintos. Se está fazendo alguma coisa de maneira honesta, seu instinto sempre vai dizer se aquilo é certo ou não.
Se tivesse que resumir o momento atual da sua carreira em uma única frase, qual seria?
“Don’t stop believing.” [“Não pare de acreditar.”] Sério.
Cheguei a pensar em abrir um canal separado no YouTube simplesmente para contar histórias sobre todas as coisas malucas que vivi e todas as pessoas que conheci. Conheci John Cleese, do Monty Python, cantei com Robert Plant e vou cantar com Brian May em outubro. E isso é só uma pequena parte de tudo o que aconteceu nos últimos cinco anos.
Às vezes penso que seria interessante escrever um livro sobre esses últimos cinco anos ou simplesmente contar essas histórias. Tudo o que vi, tudo o que vivi, os lugares para onde viajei, todas as pessoas com quem convivi… É simplesmente inacreditável.
Se você tivesse me perguntado, em 2020, “Se sua carreira terminasse hoje, você ficaria satisfeito?”, eu teria respondido que não. Estaria na merda. Hoje, ainda não estaria completamente satisfeito, porque ainda tenho muito mais a dizer, mas, depois de lançar parte desse material, acho que estaria muito mais em paz.
Sinto que, como vocalista, já mostrei muita coisa. Também mostrei bastante como letrista e como músico. O problema é que nada disso se tornou um grande fenômeno viral ou um hit. E isso também tem a ver com marketing e com sorte.
Alguns vídeos se tornam virais e, de repente, você chega ao topo. Há bandas que fizeram muito sucesso nos anos 1980 e se tornaram enormes, enquanto outras talvez fossem até melhores, mas nunca tiveram aquele pequeno momento de explosão e permaneceram sempre no mesmo patamar. Isso não significa que sejam menos boas.
É essa a questão dos hits. Um hit também depende de marketing. Se alguém sabe promover uma música da maneira certa, ela pode se tornar um sucesso. Essa é apenas a minha opinião.
Você começou a entender como funciona essa engrenagem muito cedo, não?
Comecei, sim. E hoje estou tentando romper com essa lógica por conta própria. Temos a Escape Music como distribuidora e gravadora, mas, essencialmente, fazemos tudo sozinhos como banda. Tudo o que está acontecendo agora veio diretamente de mim: meu networking, minhas músicas e a própria banda. Não houve um grande empurrão de ninguém.
Por isso, fazer uma turnê pelo Brasil apenas seis meses depois do lançamento de Follow the Blind Man foi algo enorme. Nós tocamos na Coreia do Sul no ano passado, em nosso primeiro show no país, para 12 mil pessoas. E as coisas continuam crescendo.
No fim, é uma questão de planejar as coisas, ter boas músicas e trabalhar. Acho que é disso que tudo depende. E eu não tenho medo.
Mais informações: https://dino-jelusick.com/
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