ENTREVISTA: Lenny Rutledge fala sobre a estreia do Sanctuary no Brasil, o legado de Warrel Dane e os próximos passos da banda

 


Antes tarde do que nunca: finalmente o Sanctuary fará sua estreia nos palcos brasileiros. Poderia — ou deveria — ter sido antes, quando o vocalista Warrel Dane ainda estava vivo? Sim, é claro. Mas seu substituto, o megaversátil Joseph Michael, ajuda a afastar as inevitáveis comparações, enquanto o grupo olha para frente, com um novo disco despontando no horizonte e uma prévia dele já incorporada ao repertório ao vivo. Um mês após conversar com Joseph para a ROADIE CREW, tive a oportunidade de bater o papo que você está prestes a ler com ninguém menos que Lenny Rutledge, guitarrista, membro fundador e, por mais que sua humildade e acessibilidade o levem a rejeitar tal status, uma verdadeira lenda do metal norte-americano.


Por Marcelo Vieira


O Sanctuary finalmente tocará no Brasil pela primeira vez em 30 de agosto de 2026, após quatro décadas de história. Como você se sente ao finalmente chegar a um país onde a música da banda conquistou uma legião tão duradoura de fãs no underground?

Estamos realmente muito empolgados com isso. Sabemos que há muitos fãs apaixonados por aí no Brasil. E, claro, temos muitas conexões com o país porque o Warrel esteve aí muitas vezes. Eu sempre conversava com ele quando estava por aí, e ele tinha a banda solo dele no Brasil e tudo mais. Então, sim, ouvimos muitas histórias ótimas sobre o Brasil e sobre as pessoas daí.


Esta será, na verdade, sua primeira visita não apenas ao Brasil, mas à América do Sul. O que você ouviu ao longo dos anos sobre o público brasileiro e sul-americano de metal, e o que espera descobrir por conta própria?

Que são muito apaixonados e realmente, realmente gostam de metal. Se entregam de verdade, então estamos ansiosos por isso.


Você prefere encarar o show brasileiro como uma celebração da história da banda ou como o início de uma relação com um público completamente novo?

Definitivamente, como as duas coisas. Obviamente, há muita música que queremos celebrar e compartilhar com todo mundo, tanto do passado quanto do futuro. Há muita coisa que vamos tocar que não tocamos há muito tempo, e havia algumas coisas que eram um pouco mais difíceis de executar. Mas vocês vão ouvir muita coisa antiga de Refuge Denied e Into the Mirror Black. A maior parte do repertório será formada por essas músicas. Vocês também vão ouvir três músicas de The Year the Sun Died e uma música nova do próximo lançamento.


Já se passaram doze anos desde The Year the Sun Died. O que fez de 2026 o momento certo para o Sanctuary finalmente sentir que havia uma forte razão artística para voltar ao estúdio?

Bem, estamos chegando lá. Às vezes, levamos um tempo para terminar tudo o que estamos trabalhando. E agora estamos muito mais próximos do fim. Na verdade, vamos terminar tudo neste ano, e o álbum será lançado no começo do ano que vem. Existe a possibilidade de que se chame Transmutation; esse é o título provisório.


“Not Of The Living” está sendo apresentado como o primeiro passo de um novo capítulo. O que essa música representa pessoalmente para você dentro da história do Sanctuary?

Bem, acho que representa um certo crescimento. Obviamente, também há algumas diferenças, mas tentamos fazer isso em todos os álbuns. Tentamos demonstrar um pouco de evolução, de Refuge Denied a Into the Mirror Black e a The Year the Sun Died. E acho que estamos seguindo esse mesmo caminho com este novo disco. Obviamente, a principal diferença é que o Joseph está cantando nele em vez do Warrel. Mas também estamos tentando preservar o legado do Sanctuary.


Joseph Michael descreveu “Not Of The Living” como uma das músicas mais diretas do novo material. Por que vocês sentiram que essa era a música certa para apresentar essa nova encarnação do Sanctuary ao mundo?

Bem, não sei (risos). Simplesmente sentimos uma conexão com ela e achamos que era uma boa música para isso. Muitas vezes, quando você tem um conjunto de músicas, algumas acabam se destacando. Gravamos parte deste disco em etapas e, na primeira delas, fizemos três músicas. Essa acabou se destacando como uma das primeiras que gostaríamos que as pessoas ouvissem. Sentimos que era uma música forte e que mostrava um pouco para onde estávamos indo.


Este é o primeiro material inédito do Sanctuary desde a morte de Warrel Dane. Como vocês encontram o equilíbrio entre reconhecer a enorme importância dele para a banda e evitar que cada novo passo se transforme em uma comparação com o passado?

É difícil. É realmente difícil. Acho que, dependendo da pessoa ou do ouvinte, sempre haverá comparações. Eu mesmo provavelmente sou culpado disso. Mas estamos apenas tentando fazer jus ao que consideramos uma música de que gostamos e, esperamos, conseguir fazer com que outras pessoas também gostem.

Essa é a primeira coisa para nós: simplesmente tentamos fazer músicas de que realmente gostamos.

Ao mesmo tempo, como eu disse, estamos tentando preservar o legado do Sanctuary. Não queremos ir longe demais e transformar a banda em algo bizarro ou coisa assim. Sabemos que temos certos parâmetros dentro dos quais vamos permanecer, pelo menos em sua maior parte.


Obviamente, Joseph Michael não está tentando “ser” Warrel. O que ele trouxe ao Sanctuary que você não havia percebido que a banda precisava até ouvi-lo cantando essas músicas?

Bem, uma coisa boa é que ele tem muitas qualidades vocais diferentes. Temos algumas coisas que estamos trabalhando que não têm vocais tão limpos. O Sanctuary sempre teve muitos vocais limpos, mas estamos experimentando algumas coisas que não são tão limpas — não muito, apenas um pouco — porque achamos que algumas dessas ideias são legais e gostamos delas.

Também gostamos do fato de que o Joseph consegue percorrer diferentes regiões vocais, desde coisas que remetem a Refuge Denied até algumas das partes mais graves de The Year the Sun Died. Então, valorizamos toda essa extensão vocal que temos à nossa disposição.



Os enormes intervalos entre os álbuns do Sanctuary fazem parte da história da banda. Isso afeta sua relação com a composição?

Provavelmente, sim, porque, de 1990, quando Into the Mirror Black foi lançado, até 2014, com The Year the Sun Died, obviamente algumas coisas mudaram. Eu estava contando essa história para alguém outro dia: de 1999 a 2009, não toquei guitarra elétrica de jeito nenhum. Passei dez anos tocando apenas guitarra acústica. Então, muita coisa mudou na maneira como penso e na forma como toco.

Quando o Sanctuary voltou a se reunir, eu tinha uma maneira diferente de enxergar as coisas, e acho que isso acabou moldando a forma como passei a compor depois daquele período. Passei a enxergar as coisas de outra maneira. Sinto os riffs de um jeito um pouco diferente por causa dessa pausa de dez anos que fiz, mas foi preciso algum esforço para voltar àquele ponto.


Você sente uma maior sensação de liberdade pelo fato de o Sanctuary nunca ter sido uma banda que precisou produzir discos constantemente?

É, não sei. Acho que somos apenas um pouco mais lentos. Uma das razões pelas quais demoramos tanto para lançar The Year the Sun Died foi o fato de termos ficado separados por 20 anos. Isso explica uma parte. Mas, desta vez, simplesmente levamos bastante tempo. Algumas coisas aconteceram ao longo do caminho — família, a COVID, outras questões e a morte do Warrel. Às vezes, a vida atrapalha e, em certos momentos, essas coisas são um pouco mais importantes. Quero dizer, música e metal são importantes, mas às vezes você precisa se dedicar a essas outras coisas, eu acho.


Há algo específico na maneira como Warrel compunha, cantava ou abordava uma música que ainda influencia suas decisões?

Sim. Ele era um pouco enigmático. Essa era a questão: eu estava sempre tentando descobrir sobre o que ele estava escrevendo. Muitas vezes, ele realmente não falava sobre isso. Às vezes, falava, mas havia coisas que ele explicava, principalmente quando eram relacionadas a algum tema específico.

Tínhamos algumas músicas — pelo menos uma — que eram baseadas em um livro ou filme, esse tipo de coisa. Nem sempre você percebe isso quando as ouve. Por exemplo, “Soldiers of Steel” é, na verdade, uma música baseada em um livro e um filme chamado The Keep, de F. Paul Wilson. É um ótimo filme e um ótimo livro. Então, se alguém estiver interessado em saber sobre o que “Soldiers of Steel” fala, é isso.

Adoro esse aspecto do Warrel. Ele sempre abordava temas realmente profundos. Eram assuntos muito reflexivos e profundos.


Existe uma linha tênue entre honrar o passado e ficar preso a ele. Como vocês reconhecem quando uma nova ideia está realmente levando o Sanctuary adiante, em vez de simplesmente reproduzir uma fórmula que funcionou décadas atrás?

Boa pergunta. Não sei. Tenho certeza de que existe um pouco das duas coisas. Como sou o principal compositor de riffs, tenho certeza de que há coisas que acabo reproduzindo involuntariamente. Muitas vezes, passamos por um processo de avaliação em que alguém da banda diz: “Sabe, isso está soando um pouco parecido demais com isto ou aquilo”. Então fazemos esse tipo de coisa. Na verdade, isso acontece bastante.

Muitas vezes, você percebe que pode estar plagiando um dos seus próprios riffs. Definitivamente, não queremos plagiar o riff de outra pessoa, mas às vezes nem percebemos que estamos fazendo isso. Já tivemos trechos que retiramos das nossas músicas simplesmente porque soavam muito parecidos com algum dos nossos próprios riffs de uma fase anterior da carreira.

Mas também existe o outro lado da questão. Veja o AC/DC: o AC/DC soa como AC/DC. Muitas das músicas deles soam parecidas, não é? Quero dizer, eles têm uma identidade. Então sinto que o Sanctuary também tem uma identidade, assim como muitas bandas. No fim das contas, você vai acabar tendo coisas que soam semelhantes dentro de uma determinada vertente, eu acho. Então espero ter respondido à pergunta.


Refuge Denied e Into the Mirror Black se tornaram marcos do metal americano. Quando você compõe hoje, consegue realmente esquecer esses discos ou eles inevitavelmente ficam pairando sobre você?

Eu adoro a energia de Refuge Denied. Então, às vezes, tento reproduzir aquilo. Para mim, é muito fácil escrever coisas sombrias, lentas, quase no estilo do Sabbath. Eu poderia fazer isso o dia inteiro. Então há momentos em que preciso me lembrar de que fomos nós que escrevemos Refuge Denied e de que precisamos daquela energia.

A mesma coisa acontece com Into the Mirror Black. Mirror era um pouco mais sombrio e diferente, talvez com um pouco menos de energia, mas com mais intensidade. Então, sim, às vezes penso nisso.


O novo álbum inevitavelmente será ouvido à sombra de Refuge Denied, Into the Mirror Black, The Year the Sun Died e, é claro, do legado de Warrel. O que você gostaria que os ouvintes entendessem primeiro ao ouvir o disco completo?

Tudo o que posso dizer a todos é: deem uma chance ao disco. Ouçam. Eu sempre digo para ouvirem algumas vezes, porque não consigo contar quantas vezes alguém veio até mim e disse: “Ei, ouvi ‘Not Of The Living’ e não tinha certeza sobre a música. Depois ouvi três ou quatro vezes e agora adoro”.


O Sanctuary está comemorando seu 40º aniversário em um momento muito particular da história da banda. Quando você olha para toda essa trajetória, o que ainda sente que o Sanctuary precisa provar — para vocês mesmos, e não para o público?

Bem, que conseguimos fazer isso. Que ainda somos capazes de fazer isso, que ainda podemos sobreviver, continuar saindo por aí e fazendo música de qualidade. Provavelmente continuaremos enquanto as pessoas forem aos nossos shows e continuarem nos apoiando.

Quer dizer, isso é uma parte muito importante de tudo. Sair por aí e compartilhar a música com fãs que a amam, e ver isso acontecendo — essa é a verdadeira magia.


Existe alguma música do Sanctuary que você passou a ouvir de maneira diferente por causa de tudo o que aconteceu desde a morte de Warrel?

Que eu ouço de maneira diferente? Não sei. Definitivamente, há músicas que tocamos que despertam certas emoções em nós quando as executamos. Há algumas músicas que o Warrel… Nós estamos tocando “Epitaph” atualmente, e é uma música que não tocamos muito durante muitos anos. Temos tocado e vamos levá-la conosco para a América do Sul, junto com “Veil of Disguise”.

“Epitaph” desperta algumas emoções em mim porque os pais do Warrel e o meu pai — nossos pais — morreram quando éramos mais jovens, e é mais ou menos sobre isso que a música fala.



SERVIÇO – SANCTUARY NO BRASIL

Data: 30 de agosto de 2026

Local: Burning House (Av. Santa Marina, 247 - Água Branca - São Paulo/SP)

Abertura das Portas: 17h00

Início do Evento: 20h00

Ingressos: IngressoMaster

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